Uma traição do maior nadador japonês da atualidade causou perda de patrocínio, da condição de capitão da seleção e ainda foi suspenso pela Federação Japonesa de Natação. Não tem como não ficar, no mínimo, espantado, com as punições que Daiya Seto foi submetido durante a semana. Assim, vale a pena tentar entender um pouco mais o que realmente representa tudo isso.

Não tenho dúvidas de que se fosse qualquer outro nadador da Seleção Japonesa de Natação a repercussão e as decisões seriam outras. Daiya Seto se tornou a “cara” da natação do Japão neste ciclo olímpico. Com o câncer de Rikako Ikee, e mesmo que venha a disputar a Olimpíada, as expectativas estão todas em Seto. Ainda tinha Kosuke Hagino, campeão olímpico dos 400 medley no Rio 2016, mas de lá para cá, os resultados ficaram muito a dever e chegou a se falar em até aposentadoria.

Seto não, vive a melhor fase da sua carreira. Todos os seus tempos, de todas as suas provas, fez a melhor marca pessoal entre 2019 e 2020. É o único nadador da Seleção já convocado para a Olimpíada, graças as medalhas de ouro nos 200 e 400 medley do Mundial de Gwangju, era o critério para garantir vaga antecipada pelos japoneses, ser campeão mundial.

Ele foi mais que isso. Fez grandes marcas, ainda bateu dois recordes mundiais em piscina curta (200 borboleta e 400 medley), e tem sido agraciado por inúmeros patrocinadores, aparições em programas de TV e campanhas da Federação Japonesa e Comitê Olímpico Japonês. Depois da Olimpíada do Rio, onde foi bronze nos 400 medley, Seto casou com a saltadora Yuka Mabuchi e desde então, tiveram duas filhas, uma com apenas sete meses.

A Pandemia foi onde começaram a aparecer alguns problemas para Seto. Primeiro uma troca surpreendente de treinador. Terminou uma relação de mais de 10 anos com o experiente Takayuki Umehara para passar a treinar com um ex-colega de natação, Rhuihciro Ura, de 25 anos, Seto tem 26. Nada se compara, entretanto, a publicação de uma revista japonesa com fotos de Seto deixando um motel em companhia de uma mulher no mês passado.

Quase que imediatamente ele foi a imprensa e fez um pedido de desculpas público. Na sequência, foi a sede da Federação Japonesa de Natação e entregou o cargo de capitão. Em comum acordo, abriu mão da posição de embaixador do Comitê Olímpico Japonês e ainda perdeu o patrocínio da ANA, All Nippon Airways.

Na segunda-feira, uma reunião do Comitê de Ética da Federação Japonesa acabou por incluir a atitude de Seto no artigo que previa “conduta inadequada com o esporte”. Seto foi suspenso por todas as atividades da Federação Japonesa de Natação até o final do ano. Isso inclui acesso aos centros de treinamento, training camps, competições e cortes nos benefícios.

Seto não foi impedido de participar da temporada da ISL onde iria representar a nova equipe do Tokyo King Frogs, mas entendeu achar melhor pedir o afastamento e ficará de fora da disputa.

Decisões rígidas e fortes no esporte japonês não são novidade. Faz parte da cultura e tradição, do respeito e princípios estabelecidos. Lembro do nadador Naoma Tomita que nos Jogos da Ásia da 2014 roubou uma câmera fotográfica durante a competição. Foi mandado de volta para casa e ainda ficou 17 meses suspenso. Nos Jogos da Ásia de 2018, em Jakarta, na Indonésia, a equipe toda de basquete masculino foi mandada embora pelo Comitê Japonês após levarem quatro mulheres para o hotel. Na volta ao país, ainda foram suspensos por um ano.

Também teve o caso do canoísta Yasuhiro Suzuki suspenso por oito anos ao colocar uma substância proibida na garrafa de um de seus adversários ou o jogador de badminton Kenichi Tago expulso da seleção por reconhecer que gastou 100 mil dólares em casinos. Jogo é ilegal no Japão.

Se mesmo assim acharmos a punição de Seto muito rígida, existem ainda os movimentos sociais. A cultura japonesa é, sem dúvida, uma sociedade em mudanças e evolução. A tradição de patriacardo e sociedade machista onde o casamento era até mesmo arranjado é coisa do passado. As relações extra-conjugais não são mais admitidas e a Olimpíada é um movimento enorme que faz parte desta mudança cultural.

Daiya Seto punido pela relação fora do casamento, ganhou a exposição e o desgaste, mas serviu como o exemplo para todos estes pontos listados. A intenção aqui jamais foi defendê-lo, ou acusá-lo, mas muito mais entender e tentar explicar tudo o que aconteceu. E mostra o quanto o esporte é importante numa sociedade, onde cria ídolos, mas também modelos e referência.

Coach Alex Pussieldi, editor chefe Best Swimming Inc.

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