Um trabalho magnífico, o documentário “In deep with Ryan Lochte” é excelente.

Com pouco mais de uma hora de duração, 63 minutos para ser mais exato, o documentário foi uma das atrações do recém lançado serviço de streaming de vídeos, filmes e shows da Peacock TV, uma das ramificações na gigante NBC Universal.

Lochte é muito bem descrito no documentário, desde a sua formação até o chegar ao alto rendimento. A tônica de tudo, entretanto, é o escândalo “Lochtegate” que aconteceu no dia 14 de agosto de 2016, nos Jogos Olímpicos do Rio 2016.

 

 

Quando começa o documentário, Lochte diz logo de cara “I fu…up, Im sorry”. Reconhece o erro e diz que adoraria que o tempo voltasse atrás para que nada daquilo tivesse acontecido.

Para quem não lembra, ou não conhecia, o documentário traz em detalhes o que realmente se passou.

Um dia depois do fim da natação olímpica, Lochte e três de seus companheiros de equipe americana, Jimmy Feigen, Jack Conger e Gunnar Bentz, estiveram num night club no Rio. Na retorno para a Vila Olímpica, pararam num posto de gasolina e tentaram usar o banheiro.

Como estava trancado, urinaram do lado de fora e Lochte ainda arrancou uma placa que estava pendurada. O grupo foi então abordado por um segurança (Guilherme Sobral Lins) que inclusive é entrevistado no documentário.

O segurança tentou impedir a saída do grupo do posto de gasolina e como eles se negavam precisou puxar a arma.

Lochte reconhece que estava bêbado e que errou em todo processo. Reconheceu que mentiu e contou como a notícia se espalhou.

Já na Vila, ligou para a então noiva, atual esposa Kayla Reid contando que havia sido abordado por criminosos e roubado num posto de gasolina. Esta passou a informação para a mãe do nadador, Ileana Lochte em ligação telefônica próxima ao jornalista Ben Way da Fox Australia que escutou e estava detonado o escândalo.

Um tweet publicado, e as atenções olímpicas todas saíram das áreas de competição para o Lochtegate. Não demorou muito para o assessor de imprensa do COI, Mark Adams, dizer que tudo era uma mentira, porém sem sucesso. O escândalo era maior.

Lochte desapareceu por 24 horas, mas na manhã do dia 16 de agosto deu um entrevista ao repórter Billy Bush da NBC. Não só confirmou a história como deu detalhes absurdos do episódio. Diz que o carro foi bloqueado, lhe roubaram o celular, a carteira, a credencial. Todos armados, cenário de filme mesmo.

Horas depois, os vídeos de acesso na Vila Olímpica já mostravam Lochte entrando depois do incidente com os itens que indicava terem sido roubados. Na mesma noite, silenciosamente, Lochte deixou o Brasil em “vôo que já estava marcado”.

Na manhã seguinte, a Polícia do Rio de Janeiro fazia investigações na Vila Olímpica e pela noite tirou do avião os nadadores Gunnar Bentz e Jack Conger. Os dois foram liberados no outro dia para o retorno aos Estados Unidos e apenas Jimmy Feigen teve de se ajustar com a justiça brasileira. Ele fez parte da “comunicação de falso crime” ao corroborar a história de Lochte. Pagou cerca de 10 mil dólares (informação do documentário) e foi liberado para retornar aos Estados Unidos.

No documentário, Lochte diz que se sentiu muito mal com os seus companheiros sendo culpados por algo que era só dele. Se disse e se mostrou arrependido, mas não cita como o caso terminou. Lochte se negou a pagar a justiça brasileira a multa que lhe foi imposta e até hoje o caso segue aberto a pedido do Ministério Público.

Depois disso, o documentário mostra toda a escalada de perda de patrocínios, de rejeiçãoo da mídia, do afastamento dos amigos em consequência do episódio. Lochte “chegou ao fundo” como ele mesmo disse.

 

 

A melhor parte é mostrar que ele mesmo decidiu voltar ao time olímpico para reconquistar o respeito e a confiança de seus colegas de seleção, do público. Interessante que ao mostrar todo o processo de reconstrução e treinamento de Lochte, ele descobre novas coisas, muito mais importante e relevantes.

Se conseguir se classificar para os Jogos Olímpicos de Tóquio, será sua quinta Olimpíada da carreira, se tornará no mais velho nadador da história a fazer parte do time americano em Jogos Olímpicos. Porém, o seu casamento com Kayla Reid, e os filhos Caiden e Liv lhe deram outro tipo de visão da sua carreira e vida pessoal.

 

 

Este ponto é o mais interessante de todo o documentário. Lochte pode até não chegar ao time americano, mas conseguiu construir uma família e iniciar um novo ciclo em sua vida.

Outros pontos interessantes que valem ser citados é a diferença das carreiras e características de Michael Phelps e Lochte. Phelps é apresentado como o super homem, o dedicado, o obstinado, enquanto Lochte é um personagem, uma pessoa divertida, que por anos frequentou festas e baladas. A segunda parte é verdade, mas o documentário não cita os problemas de Phelps na sua caminhada. É como separá-los entre “good and bad boy”.

Também me chamou a atenção a ausência da mãe de Lochte. Ileana Lochte. Diferente do pai, Steve Lochte, que aparece muitas vezes no documentário, Ileana é totalmente esquecida. Os dois se divorciaram em 2011 depois de 36 anos de casamento.

Nesta parte do pai, Lochte cita que quer muito que seus filhos tenham orgulho de quem ele foi e talvez seja esta sua maior missão no momento.

 

 

O repórter da NBC Billy Bush também tem bastante destaque no documentário. Aparece a reportagem que Lochte conta o episódio, depois ele mesmo defendendo Lochte e agora, ainda nos tempos atuais tomando a defesa do nadador. Para ele, a notícia foi “potencializada” e ele foi vítima.

Bush não está mais na NBC, foi demitido após vazar um vídeo/áudio no qual conversava animadamente com Donald Trump antes de chegar a presidência. É a famosa discussão do “grab by the p….”. Foi demitido em novembro de 2017 e atualmente ele trabalha como apresentador na Telepictures, outra emissora americana.

Não dá para negar que o caso Lochtegate foi péssimo, horrível e imperdoável. A dimensão que o caso tomou é devidamente tratada e abordada no documentário. Entretanto, “In deep with Ryan Lochte” consegue trazer este personagem uma imagem renovada.

Cabe aqui um relato pessoal. Tive a oportunidade de ver Ryan Lochte desde a juventude. Lhe conheci quando ainda estava no high school e até treinei um nadador que tirou de Lochte a chance de nadar as provas individuais nos Jogos Pan Americanos de 2003, onde nadou apenas os revezamentos na sua primeira seleção americana.

Depois, Lochte se tornou um dos maiores nadadores universitários defendendo a Universidade da Flórida, um dos maiores nadadores olímpicos de todos os tempos e, sem dúvida nenhuma, o melhor nadador de piscina curta da história.

Lochte, com todo o estrelato, jamais perdeu a sua simplicidade, o seu carinho com os amigos, com os fãs. Do seu jeito, Lochte sempre gostou de pagar contas de bares, restaurantes e não foram poucas vezes que num night club de Gainesville o DJ anunciava uma rodada de “free drinks” para todos, conhecidos ou não, pagos pelo “party boy”.

Uma carreira brilhante, um erro enorme, e a reconstrução descobrindo coisas muito mais importantes e significativas dão um toque maravilhoso neste trabalho do documentário. Como disse ao princípio, imperdível!

NOTA:
Ainda não tenho detalhes de quando, e como o documentário chegará ao Brasil.

 

Clip do documentário

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