“Tem um monte de doping em todo lugar na natação. Você sabe que está acontecendo e eu posso dizer que não confio na metade dos caras que competem contra mim”.

A declaração é do atual campeão olímpico dos 100 metros nado livre Kyle Chalmers, em mais uma daquelas declarações sem provas, sem fatos, apenas “impressão”.

Não vou esconder que não gosto e não aprecio tal tipo de declaração. Primeiro que não tem sustentabilidade nem comprovação, mas o pior é porque é seletiva. Chalmers não fez nenhum comentário sobre o doping de companheiros de Seleção da Austrália, nada. E não foram poucos.

Não dá para dizer que Chalmers é o primeiro a fazer isso. Lembro que Michael Phelps em outubro do ano passado também foi incisivo neste tipo de declaração: “..eu acho que nunca participei em minha carreira de uma competição onde todos fossem limpos…”.

Mesma coisa. Não pelo fato de Phelps ter sido suspenso por um ano por infração de doping, mas por não ter este tipo de afirmação como fato e, mais uma vez, seletivo. Alguém viu Phelps falando do caso de doping de Ryan Lochte, Madisyn Cox, ou outros tantos americanos que foram pegos durante a sua carreira? Claro que não.

Estes protestos e declarações sempre ganham grande repercussão na imprensa. Atletas acabam virando paladinos em busca do esporte limpo, mas se calam quando o doping é de um colega, ou um amigo.

Lembram de Mack Horton e seu famoso protesto de recusar foto e cumprimento com Sun Yang no pódio dos 400 metros nado livre do Mundial de Gwangju no ano passado?

Três dias depois, ainda em Gwangju, estourou o doping da companheira de equipe de Horton, Shayna Jack. Enquanto esperava o ônibus da delegação australiana de retorno para o hotel, Horton foi questionado por um jornalista de seu país e a pergunta era sobre o que ele poderia falar do doping da companheira. Horton, virou as costas como se não tivesse sido com ele. Aliás, até hoje, nada falou.

Um caso bem interessante aconteceu este ano. O sul-africano Roland Schoeman testou positivo e foi suspenso por um ano por suplemento contaminado. Numa participação em podcast com Brett Hawke revelou que uma das primeiras coisas que fez foi ligar para Cesar Cielo. O mesmo que ele publicamente reprovou nas redes sociais em 2011, no caso da cafeína contaminada na farmácia de manipulação. Demorou nove anos para Schoeman reconhecer o erro.

Existe algo que sempre repito em todos os espaços que tenho: doping é globalizado! Existe doping em todo mundo e não apenas nos pratos preferidos da imprensa internacional, Rússia e China. Aliás, se falarmos de natação, tivemos mais nadadores com infrações de doping nos Estados Unidos neste ciclo olímpico do que nos dois países sempre citados. Falando nisso, não pense que os brasileiros também não são vítimas desta fama.

Não pense que sou a favor do doping, muito pelo contrário, mas como ex-treinador que fui, e atualmente trabalhando na mídia, sei que ele persiste como também existe uma indústria por trás dele. São interesses políticos e econômicos.

O doping é o grande mal do esporte de alto rendimento e precisa ser combatido. Porén, para isso existe os controles, o código, a lista das substâncias proibidas, a WADA. As punições devem ser feitas pelo tribunal esportivo, jamais por este linchamento virtual que quase sempre é parcial e seletivo.

Isso também fica evidenciado na imprensa. Lembro quando a suspensão de quatro anos de Shayna Jack foi anunciada o título destacava que ela estava apelando e não sendo suspensa. Esta semana, tivemos um nadador irlandês que testou positivo e a tônica das publicações foi de que ele “cometeu um engano e havia cooperado por completo com as autoridades”.

Trabalhei por muitos anos na borda da piscina para dizer com clareza de que o doping existe e precisa ser reprovado. Por isso, sistema precisa ser respeitado e a autoridade dos órgãos competentes é quem deve legislar.

O doping pode acontecer com qualquer um. Sim, isso mesmo, qualquer um. Repetidas pesquisas indicam entre 15 a 20% de suplementos no mercado podem estar contaminados, fora o doping involuntário, a negligência ou as contaminações nas farmácias de manipulação.

Não precisamos defender nossos atletas que testarem positivo, não é isso que estou apregoando, mas deixem que a justiça esportiva faça com que as leis sejam cumpridas.

Quando saiu a recente punição do nadador de águas abertas da Argentina Guillerme Bertola por quatro anos para frente e a anulação de seus dois anos de resultados para trás, a primeira impressão que tive foi de repúdio e reprovação. Que absurdo, pensei eu.

Ao ler a documentação publicada pela FINA, tive conhecimento de todos os detalhes do caso. Bertola suprimiu a informação de que havia se submetido a uma transfusão de sangue no processo de defesa. Com a nova interpelação do Painel de Doping que identificava a irregularidade nos exames do nadador, ele confessou. Ou seja, não só fez a transfusão como omitiu. Como podemos defende-lo?

Vejo todos os casos desta forma. É muito fácil sair na frente acusando ou defendendo, mas somente poderemos ter uma posição mais precisa ao tomarmos conhecimento de todas as informações. Muito diferente do que acontece no tribunal do doping da internet.

Neste espaço, seguiremos defendendo o esporte limpo, sem parcialidade, ou seletividade, e obedecendo o que determinam as instituições. Assim, diferente do título do Editorial, o doping e o dopado, nunca é bom, mas não somos nós que temos a autoridade para condenar ou absolver.

Por Coach Alex Pussieldi, editor chefe da Best Swimming

3 respostas
  1. Igor Daiha
    Igor Daiha says:

    Excelente, coach! É muito fácil julgar quando é o outro e difícil de olhar pro lado ou para o próprio umbigo e julgar da mesma forma. Parabéns pelo belo editorial!

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