Editorial: A controversa decisão da CBDA de barrar treinadores estrangeiros

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FABIOLA MOLINA

A CBDA divulgou os critérios para as convocações das Seleções Brasileiras para o Mundial de Gwangju, os Jogos Pan Americanos e o Mundial Júnior de Budapeste. Entre os critérios apresentados, um deles, especificamente na convocação para o Mundial chamou a atenção de todos, pelo menos, pelo ineditismo.

Segundo a letra “D” dos critérios trata da “Formação da Comissão Técnica”. Lá fica estabelecido que “A Comissão Técnica que acompanhará a seleção brasileira para o Campeonato Mundial, será formada por quatro treinadores (de nacionalidade brasileira e que estejam atuando dentro do mercado no Brasil) dos melhores resultados dentro do ranking da FINA”.

O assunto já gerou discussões e protestos. Isso nunca havia sido feito em convocações e/ou boletins anteriores. Acho que vale a pena um esclarecimento e até mesmo uma projeção do que vem pela frente.
Em primeiro lugar é importante que se destaque que a proposta foi apresentada pelos integrantes da Conselho Técnico Nacional. Tal proposta foi recebida e acatada pela CBDA.

Não há como se culpar um ou outro dos treinadores integrantes do Conselho, pois a proposta teve aceitação de todos, nem como isentar a CBDA da proposta, afinal acatou uma decisão de um conselho, que por estatuto, tem função consultiva, embora de grande importância técnica em nossa realidade.

Toda discussão nestes termos tem dois lados. De um lado, os membros do Conselho Técnico Nacional são indicados por mérito, isso mesmo, são eles os técnicos do país que treinam os melhores atletas, ou a grande maioria deles. De outro lado, vai haver quem diga que a proposta foi deliberada “em causa própria”.

Também é importante que se destaque que medidas como estas não são inéditas na natação internacional. Ser cidadão americano e atuar no país é condição expressa nos regulamentos da USA Swimming na formaçnao de suas seleções. Na Austrália se permitem estrangeiros, mas desde que atuem no país, mesma coisa que Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, Espanha, França, Canadá, Itália. Também existe o oposto, permitir treinadores estrangeiros que atuem fora de seus países. Rússia, China, África do Sul, Ucrânia, Croácia, Israel, Coreia do Sul.

Poderia ficar o dia todo aqui, existem exemplos para as três situações. Portanto, a medida, por mais que seja controversa, não é inédita lá fora.

Ao ver uma medida como esta precisamos pensar em que vantagem a natação do Brasil estaria tendo com tal regulamentação. Favorecendo os treinadores que atuam no país, o investimento dos clubes, até mesmo os atletas que atuam no Brasil. Todos estes itens são verdadeiros, mas não há o benefício da natação, e principalmente dos resultados. Não há esta garantia!

Natação competitiva de alta performance precisa ter o critério da meritocracia. Nisso precisamos ser honestos e diretos. Para o melhor, o melhor! É assim, e deve ser assim!

Até acho difícil a CBDA rever tal proposta para este Mundial. Gwangju é importante, é a principal competição do ano, mas estou, preciso ser sincero, muito mais preocupado com os Jogos Olímpicos de 2020. Tóquio é o que há de mais importante para o nosso esporte neste quadriênio.

Para lá, o foco é o top do top. Precisamos mandar uma seleção qualificada, que nade em busca de medalhas e consiga apagar os maus resultados do Rio 2016. Para Tóquio 2020, o melhor TEM de receber o melhor.

A CBDA e o COB, este que tem política dentro do que estou a escrever, precisam oferecer aos melhores nadadores as melhores condições. Classificar-se para os Jogos é bom, é importante, mas quem tem chance de medalha precisa ter tratamento diferenciado. Seja de investimento, de oportunidades e de benefícios.

Até mesmo um levantamento histórico reforça este editorial. Em mais de 100 anos de participação olímpica, a natação brasileira acumula 13 medalhas olímpicas. Destas 13, sete delas, mais de 50% foram de atletas que fizeram sua preparação no exterior.

O melhor nadador, aquele que chegar a Tóquio com as maiores chances de medalha precisa estar com seu treinador. Seja este profissional nascido no Cazaquistão, no Sri Lanka ou na Mongólia. Este treinador vai precisar estar na Olimpíada mesmo que trabalhe na Malásia, no Congo ou no meu querido Kuwait. Isso se chama meritocracia!

Qualquer outra decisão que não seja esta, de dar aos melhores, o melhor, estaremos sendo no mínimo, injustos.

Coach Alex Pussieldi, editor chefe da Best Swimming.

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