Editorial: A crise mundial da natação

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FABIOLA MOLINA

Thomas Bach, Presidente do COI, está em Marbella, na Espanha, onde se realiza uma convenção dos Comitês Olímpicos da Europa. Em discurso inflamado, o dirigente alemão pediu a todos uma atenção especial ao movimento que estamos vivendo. “A influência do poder econômico não só coloca uma pressão no esporte, mas é uma ameaça”.

Bach se refere diretamente a estruturas comerciais que estão a influenciar em movimentos ou ações dos comitês olímpicos nacionais e das federações internacionais de esporte. Já no ano passado, a ISU, Federação Internacional de Patinagem teve problemas com uma ação que teve a intromissão da Comissão Europeia para permitir atletas a participar em torneios fora da entidade.

Agora, a FIBA, Federação Internacional de Basquete, está a brigar com a EuroLeague e a FINA com a ISL, International Swimming League.

Na natação, a ISL foi uma tentativa de criar uma liga paralela. O plano inicial eram oito equipes, cada uma com 24 atletas, 12 de cada sexo, e de diferentes países. Estes 192 nadadores viajariam pelo mundo em diferentes cidades em torneios sempre em piscina curta. O plano arrojado da ISL era levar natação para 100 milhões de pessoas em cinco anos.

A ISL tem a frente um ex-banqueiro internacional, Ali Khan, totalmente bancada por um bilionário ucraniano Konstantin Grigorishin e com a assistência do grupo empresarial Wasserman, de Casey Wasserman, homem forte da candidatura Los Angeles 2028.

Grigorishin é um apaixonado pela natação. Há alguns anos banca nadadores russos e ucranianos e desde 2016 abriu o Energy Standard, clube profissional que recebe inúmeros atletas de diferentes países em um training center na cidade de Glória, na Turquia. Fazem parte do seu projeto nomes como Chad Le Clos, Sarah Sjoestroem, Mykhailo Romanchuk, Kliment Kolesnikov, Ben Proud, entre outros.

A empresa Energy Standard é uma poderosa empresa de energia da Ucrânia com diferentes negócios na Europa. Grigorishin além da natação é um apaixonado por arte e dizem que tem uma fortuna de 300 milhões de dólares só em pinturas e esculturas.

Todo este projeto da Energy Standard e da ISL seria para dar aos atletas uma recompensa maior do que os 0,03% que vem sendo distribuídos (número informado pela própria ISL) pela FINA em suas competições.

O Minas Tênis Clube foi oficialmente convidado para ser o representante brasileiro no projeto e chegou a participar de alguns encontros na organização do evento. Entretanto, as questões legais e os regulamentos da FINA impedem a criação de qualquer evento internacional reunindo países e/sou clubes filiados as federações nacionais filiadas a FINA.

Torneios nacionais são de competência e responsabilidade de cada federação nacional, mas quando entra na esfera internacional, precisa da anuência da entidade reguladora.

O projeto ISL entrou na esfera política ao se associar ao Presidente da Federação Italiana de Natação, Paolo Barelli. Ele também é Presidente da LEN, Liga Europeia de Natação, e vice presidente da FINA para a Europa. Rival declarado da direção da FINA, viu na ISL a oportunidade de enfrentar a entidade maior.

Barelli tentou, sem sucesso, a candidatura para a presidência da FINA no ano passado. Na verdade, sua briga não é com o atual presidente Julio Maglione, mas com o 1o vice, e provável sucessor, Husain Al-Musallam do Kuwait. A disputa já deixou o campo esportivo há tempos.

Acusações, declarações e até gravações ganharam espaço na mídia internacional e o caso também chegou ao CAS/TAS. Barelli perdeu em todas as esferas. Agora, tenta desarticular o poder da FINA sobre o esporte.

No dia 5 de junho deste ano, a FINA emitiu um boletim a todas as 209 federações nacionais filiadas a entidade. Nele, informava que não reconhecia a formação da tal liga, não reconheceria qualquer resultado, ou recorde batido. Ainda reforçava que somente a FINA era responsável pela organização do esporte a nível internacional.

Foi no dia 30 de outubro que a FINA tomou uma iniciativa ainda mais radical. Desta vez, o boletim distribuído novamente entre todos os filiados informava dos artigos que estariam sendo violados e ameaçando possíveis atletas e/ou federações que tomassem parte em tal evento.

Dois dias depois, a Federnuto, Federação Italiana de Natação publicava o regulamento e as informações do Energy for Swim, competição que terá o patrocínio e todas as despesas pagas pela empresa Energy Standard. O torneio seria realizado em Turim, na Itália, dias 21 e 22 de dezembro, quatro equipes de atletas de diferentes países com disputa em várias provas, em piscina de 25 metros.

Segundo o regulamento da FINA, algumas regras estatutárias estariam sendo descumpridas com a realização deste evento:
1. Toda competição internacional precisa de seu aval.
2. Permissão para realização de torneios internacionais requerem solicitação oficial de uma entidade filiada seis meses antes de sua realização.

Com o descumprimento de seu estatuto, a FINA ameaça em punições que podem variar de 1 até 2 anos . A ISL já havia identificado que não poderia levar adiante seu projeto de Liga paralela. A realização do torneio era uma alternativa, mas o grupo não esperava que a FINA continuasse a vetar a sua realização

O site SwimSwam dos Estados Unidos, que é patrocinado pela Energy Standard, tem anunciado diariamente a inclusão de novos atletas que irão fazer parte do evento. A própria organização já garantiu a todos os atletas caso o evento seja cancelado os nadadores serão recompensados com metade do cachê proposto para a competição.

Até a publicação deste editorial, já eram 47 nadadores internacionais confirmados (link). Do Brasil, dois nadadores foram chamados pela organização, Nicholas Santos e Felipe LIma, porém a CBDA seguiu a recomendação da FINA e CONSANAT indicando aos atletas os riscos que poderiam correr ao participarem de tal evento.

O impasse passa muito longe de ser uma oportunidade financeira para os atletas. Estamos diante de uma ameaça ao esporte e suas regras. Acho fenomenal que Energy Standard esteja investindo tanto dinheiro no esporte, mas temos uma entidade centenária que regula, administra, promove e não pode ser jogada de lado.

A FINA organiza o esporte em todos os níveis, promove clínicas e cursos nos cinco continentes, tem seus planos de incentivo a pequenos países e leva a natação e os outros esportes aquáticos nos mais diferentes lugares do planeta. Estamos falando de milhares de atletas e não de poucas dezenas que poderiam estar sendo beneficiados com este evento.

Vale lembrar que no regulamento da ISL atletas que já testaram positivo para doping são proibidos de participação nas suas competições. Por isso nomes como Sun Yang, Yulia Efimova, Vlad Morozov não são bem vindos em suas disputas e nem foram convidados.

Mesmo já tendo cumprido suas respectivas suspensões, a ISL, na sua filosofia de “doping free” não admite a presença de nadadores que já testaram positivo no passado. É simplesmente rejeitar a regulamentação e controle anti-dopagem, criando uma regra própria impedindo atletas que já testaram positivo, cumpriram suas suspensões e estariam de volta ao esporte.

Países tem reagido de forma diferente neste embróglio internacional. O Japão proibiu seus atletas. O Brasil apenas recomendou. A Federação Americana fez um comunicado aos seus atletas da Seleção apontando os riscos de tal iniciativa, mas a lista apresentada tem muitos nomes dos Estados Unidos. Duas equipes, inclusive, são chefiadas pelos americanos Jason Lezak e Lenny Krayzelburg.

A FINA em decisão extraordinária, e atendendo a demanda política, decidiu praticamente dobrar a premiação do Campeonato Mundial de Piscina Curta que acontecerá em Hangzhou, na China, em dezembro. A premiação anterior era de 1,2 milhões de dólares. Agora, serão 2,1 milhões de dólares para os atletas.

O caso, por incrível que pareça, está longe de ser um problema do esporte, e nem mesmo financeiro. É uma disputa política, e pelo poder.

Alex Pussieldi, editor chefe da Best Swimming.

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