Há 50 anos, dia 19 de fevereiro de 1968, o jovem José Sylvio Fiolo, então com 17 anos de idade, quebrava o recorde mundial dos 100 metros nado peito com 1:06.4 em tentativa isolada realizada na piscina do Guanabara.

Capa do jornal O Globo

O feito ganhou bastante espaço na imprensa nacional e encheu as arquibancadas do Guanabara para apoiar aquele que era o mais destacado nadador brasileiro na época.

Revelado em Campinas, aos 15 anos de idade Fiolo já era integrante da Seleção Brasileira Absoluta. Aos 16, venceu o Sul-Americano e quebrou pela primeira vez o recorde continental dos 100 metros nado peito com 1:11.0. A mudança para o Rio de Janeiro, e os treinos no Botafogo com Roberto Pável fizeram a diferença para no ano seguinte, aos 17 anos, se sagrar campeão panamericano com impressionantes 1:07.5.

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Fiolo impressionava. Seu técnico definia seu nado com as características da braçada russa com a pernada americana. Em outubro de 1967 a revista americana Swimming World já trazia um artigo especial sobre o brasileiro. Na época, se dizia que Fiolo seria capaz de rasgar uma lista telefônica de São Paulo com as fortes mãos apesar da juventude.

Um forte Campeonato Sul-Americano foi disputado na piscina do Fluminense em fevereiro de 1968. Foram 29 recordes quebrados, 11 sul-americanos, 12 de campeonato e seis brasileiros, Fiolo quebrou as marcas de 100 e 200 peito, sendo que nos 100 registrou impressionantes 1:06.8. O recorde era do soviético Vladimir Kosinsky feitos no ano anterior com 1:06.7 na disputa do campeonato nacional em Leningrado, na União Soviética.

Atendendo a pedidos do treinador Roberto Pável, a CONSANAT e os juízes da FINA aprovaram o pedido da realização da tentativa de recorde mundial para aquele 19 de fevereiro de 1968.

Fiolo acordou tarde aquele dia, 10 da manhã. Tomou café e foi a piscina junto com seu treinador. Enquanto Pável dava uma palestra sobre o nado peito para os treinadores da América do Sul, Fiolo soltava na piscina do Fluminense. O Sul-Americano de natação havia encerrado há quatro dias, agora eram as disputas das outras modalidades, mas nesta manhã, não havia quase ninguém.

Fiolo treinou e esperou por Pável. Os dois ainda tomaram um refrigerante antes de se despedirem para o intervalo do almoço. As 17 horas, a piscina do Fluminense assistia a disputa dos saltos ornamentais das mulheres quando Fiolo chegou e ficou por alguns minutos antes de ir junto com Pável para o Guanabara onde seria a tomada de tempo.

No caminho, Pável dizia que depois dos 100 peito, o objetivo era também lutar pelos 200 metros. Até 1964, apenas os 200 metros peito era prova olímpica. Naquele ano, os 100 metros peito estrearia na Olimpíada. Pável estava animado com o seu pupilo que faria sua estreia olímpica na Cidade do México meses depois.

Fiolo nadaria sozinho. Era uma tentativa isolada em busca de recorde mundial. Igual ao que Manoel dos Santos fez em 1961, na mesma piscina, no Guanabara, onde se tornou recordista mundial com 53.6. Para animar Fiolo, Pável brincou “pense numa menina bonita te esperando ao final da prova”. O jovem Fiolo apenas respondeu: “Aí, agora posso chegar mais rápido”.

Na entrada do clube, o porteiro do Guanabara pede a Fiolo, “passe pela roleta para dar sorte”, evitando a entrada livre disponível para ele. A arquibacanda lotada, imprensa por todo lado. Fiolo só encontrou paz e isolamento no vestiário dos meninos, separado dos adultos, totalmente reservado para ele.

Lá, fez o aquecimento junto com Pável. Foram 10 minutos de flexibilidade, ativação de braços e pernas. Foi para a piscina, mais 30 minutos, nadou crawl, borboleta, peito e bateu perna com as pesadas pranchas de madeira. Fez dois tiros de 25 metros. O primeiro 14.2, Pável não gostou. No segundo, 14.0 ganhando elogios do treinador.

Para a tentativa de recorde mundial a meta era mudar a estratégia. Velocista por excelência, Fiolo tinha característica de passar forte e caía muito no final. Nas últimas provas sempre fez os primeiros parciais entre 30.3 a 30.6. Para aquele dia, o objetivo era passar mais fraco, mais controlado, administrar o parcial para 31.4 e poder fechar melhor.

Momentos antes da prova, Pável e Fiolo conversaram por vários minutos. O “31.4” foi repetido exaustivamente, era a chave para conseguir o resultado segundo a estratégia do treinador.

Na prova, Fiolo cumpriu as ordens de Pável. Saiu mal, a saída era uma de suas fraquezas. O técnico já havia antecipado, “não se preocupe com uma saída ruim”. E ela aconteceu.

Na passagem, saiu o esperado 31.4. Para a torcida um ar de desânimo. Não estavam acostumados com um parcial tão fraco, não sabiam do plano estabelecido para a prova. Na altura dos 75 metros, o tempo marcava 48 segundos, a torcida começou a se agitar e incentivou muito nos últimos 25 metros.

Ao tocar a parede, aqueles minutos de expectativa. Três árbitros da FINA e mais o sistema de cronometragem semi-automático da Omega. O árbitro brasileiro Ruben Dinard marcou 1:06.5. O árbitro argentino 1:06.3 e o uruguaio 1:06.4. Na cronometragem da Omega, 1:06.5 para o cronometro de Dinard, 1:06.25 para o argentino e 1:06.35 para o uruguaio. Na média, 1:06.4. Antes do anúncio oficial, o árbitro argentino reclamou com Dinard como ele havia marcado o tempo acima. A resposta foi de que ele marcou a saída pela fumaça do tiro e não pelo som.

Foi o árbitro geral Julio de Lamare que fez o anúncio oficial do tempo e novo recorde mundial de 1:06.4. Antes disso, Roberto Pável não resistiu e foi o primeiro a gritar para o nadador: “Você bateu o recorde, você bateu o recorde” repetia o técnico.

A comemoração tomou conta da arquibancada. Pável não se controlou e foi para a água com roupa e tudo e junto de seu nadador agradecia o carinho da torcida.

Horas depois, os dois foram recebidos com festa na sede do Botafogo. Lá, Fiolo pode assistir sua prova na TV e ainda teve a honra de abrir a primeira champagne além de servir a primeira taça de seu técnico.

No dia seguinte, a façanha estava em todos os principais jornais do país. O Jornal do Brasil deu duas páginas e uma foto na capa para registrar o feito.

Fiolo nos Jogos Olímpicos de 1972

O recorde José Sylvio Fiolo durou dois meses. No dia 18 de abril de 1968, outro nadador soviético Nikolai Pankin no Campeonato Nacional marcou 1:06.2 e dois dias depois voltou a quebrar com 1:05.8.

José Sylvio Fiolo seguiu nadando até os 27 anos de idade. Começou a carreira como técnico de natação, mas em 1988 mudou-se para a Austrália onde vive até hoje. Seu filho, Pietro Figlioli, foi jogador de polo aquático da Seleção Australiana e depois naturalizou-se italiano.

Na carreira de Fiolo, duas participações olímpicas, 1968 e 1972 e três Jogos Pan Americanos. Tem sete medalhas em Jogos Pan Americanos, dois ouros e cinco bronzes.

Nos 100 metros peito, Fiolo baixou sua marca mais duas vezes na carreira. Ainda em 1968 fez 1:06.2 e nos Jogos de Munique em 1972 se tornou no primeiro brasileiro a nadar a prova abaixo dos 1:06 com 1:05.99.

Seu recorde brasileiro e sul-americano durou por 12 anos até Luiz Carvalho quebrar a marca nos Jogos de Los Angeles em 1984 com 1:05.96.

Conheça mais sobre a carreira de José Sylvio Fiolo em artigo publicado na Best Swimming por Pedro Junqueira:

http://www.bestswimming.com.br/beijing2008/conteudo.php?id=8946

E na página do Hall of Fame da Natação Brasileira:

http://hfnb.com.br/jose-sylvio-fiolo/

Duas participações de Fiolo na Olimpíada registradas em vídeo:

Jogos Olímpicos da Cidade do México, 1968, Fiolo na raia 6

Jogos Olímpicos de Munique, 1972, Fiolo novamente na raia 6

 

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