As trocas de nossa natação…

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FABIOLA MOLINA

A gente sempre troca. Troca de casa, de carro, de escola, de cidade, e até de país. Tem gente que troca de esposa, de marido, até de sexo.

No esporte é assim também. Atleta troca de clube, de técnico, de programa. Trocar faz parte, mas a gente troca pensando no melhor. Nem sempre dá certo, mas a troca é pensando em melhorar.

Se a gente olhar entre os maiores nadadores do mundo, do Rio 2016 para cá, muitos trocaram de técnico, de programa.

A sueca Sarah Sjoestroem deixou a dupla de treinadores Carl Jenner e Andrey Vorontsov para treinar com Johan Waalberg. Um programa de muita quilometragem, por outro, mais técnico, mais curto, mais intenso.

O sul-africano Chad Le Clos encerrou uma longa jornada com Graham Hill, seu técnico desde a infância para ter um treindor exclusivo, Andrea Di Nino. Na Austrália, Mitchell Larkin também deixou um trabalho de anos com Michael Bohl primeiro numa experiência num programa de menos metragem e mais intensidade, depois foi para o auxiliar de Bohl, Dean Waxall, não se deu bem treinando pouco.

Yulia Efimova, Ruta Meilutyte, Ben Proud, Sun Yang, e tantos outros, trocar é normal, faz parte.

O que só acontece no Brasil, é trocar por uns trocados a mais. Nosso sistema clubístico tem suas particularidades. Nenhum outro programa do mundo tem o que se oferece no Brasil. Aqui, alguns dos principais clubes já começam a pagar atletas a partir do juvenil.

Na Austrália, Estados Unidos, por exemplo, ninguém recebe, pelo contrário, até as estrelas pagam para nadar. Inclusive os brasileiros que recebem de seus clubes no Brasil e tem de pagar suas mensalidades nos clubes americanos.

Certo ou errado, é este nosso sistema. Clubes pagam, clubes exigem. O sistema é clubístico, vencer o campeonato nacional é importante, muito importante.

Não sou contra isso, mas me incomoda que enquanto atletas buscam melhores condições (financeiras), clubes querem ganhar seus campeonatos e treinadores reforçam suas equipes, quem se preocupa com a natação?

Se um bom nadador é produzido em alguma parte do Brasil, e levado para um clube grande, a sequência e progressão deste trabalho é quebrada. Pode ser que ele continue crescendo e dando resultados, mas como toda troca, tem os ajustes e período de adaptação. Nada é garantido.

O programa que perde um nadador destes, perde referência, perde sequência e muitas vezes os profissionais perdem motivação.

O clube grande que recebe até tem outros nadadores que nadam a mesma prova do nadador que chega. Mas, ou não estão dando resultado, ou já deram o que tinha de dar, passa adiante.

O sistema é como chupar uma bala, quando perde o sabor, cospe fora.

Quando um clube e um profissional faz uma temporada ruim, o que ele deveria fazer para o próximo ano? Trabalhar mais, planejar melhor, aprender com os erros e aperfeiçoar. O que fazemos?

Na prática, contratamos. Simplesmente jogamos as balas sem sabor fora, e contratamos!

Não precisa ser um cientista atômico para entender este ciclo. Não caminhamos para a frente. Rodamos todos os anos, no mesmo lugar, no mesmo sistema.

Um bom nadador faz um bom resultado, vai para um clube onde ganha de todos de lá, ou seja, não ganha nem na disputa diária, pois seus tempos são melhores. Os que estavam no clube, tem duas chances, ou nadam mais para acompanhar a estrela que chega ou aparecem nas listas de dispensa de todo ano. É a bala que se vai.

Sinceramente, não sei a solução para isso, apenas me incomoda, e muito. Enquanto cada um pensa em si, ninguém pensa na natação.

Um bom Natal a todos…

Coach Alex Pussieldi, editor chefe Best Swimming.

3 Comentários

  1. Murilo, é aí que você se engana…
    Em termos de formação de atletas eu arrisco dizer que os clubes são quase tão bons ou até melhores do que clubes e universidades americanas. Pecamos pelo numero de praticantes, nos EUA tem TANTA criança nadando que uma hora ou outra vai sair alguém de talento ali do meio.
    Discordo também sobre o investimento, na época das vacas gordas o tanto de dinheiro que a CBDA tinha era absurdo, e o tanto que era disperdiçado era mais absurdo ainda… Resultado não se compra, se constroi com trabalho, dedicação e seriedade.

    O sistema clubistico brasileiro é SIM um sistema individualista, predatério e acima de tudo um sistema LIMITANTE. Ainda mais quando ele é basicamente uma enorme panelinha de apenas dois clubes de eixo SP/BH.

    E digo mais… é surreal o tanto de atleta que os clubes sustentam que não acrescentam absolutamente nada ao esporte na posição de ATLETAS, homens e mulheres com idade de master que nem se quer entram no ranking mundial ganhando quase 10 mil reais por mes.

    ESTA NA HORA DE OLHAR PARA A BASE!!!

  2. O sistema clubistico do Brasil é único e tem seus defeitos mas como não temos o fantástico sistema universitário americano ou o investimento público de outras potências aquáticas, a natação de alto nivel do Brasil depende muito desses clubes. Espero que nossa nova CBDA saiba diversificar como fazemos natação competitiva para não dependermos tanto desse sistema atual.

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