Na Raia: Tem medalha que não tem cor

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Gabriel Santos, Bruno Fratus, Cesar Cielo e Marcelo Chierighini no 4 x 100m livre de prata do Brasil
FABIOLA MOLINA
Gabriel Santos, Bruno Fratus, Cesar Cielo e Marcelo Chierighini comemoram a prata no 4 x 100m livre no Mundial de Budapeste

Bruno Fratus bateu a mão na borda e o Brasil ficou a 28 centésimos, apenas 28 centésimos, de conquistar o ouro no 4 x 100m livre no Mundial de Budapeste. É uma diferença muito pequena. Muito. Os Estados Unidos venceram a prova. E o quarteto brasileiro, que ainda tinha Gabriel Santos, Marcelo Chierighini e Cesar Cielo, explodiu de felicidade.

Ali, dá para apostar, a cabeça de cada um vai a mil. Cada um com seus motivos. Cada um transbordando de emoção por razões particulares. Foi uma vitória. Ninguém parou para lamentar o fato de ter ficado tão perto de estar no lugar mais alto do pódio. A conquista foi gigantesca, e como foi.

Passou pela emoção do novato Gabriel, do enfim medalhista Chierighini, do às vezes injustiçado Fratus, da redenção (mais uma) de Cielo. Campeão olímpico, seis vezes campeão mundial, e ele não tirava o sorriso do rosto. Disse que achava que nunca mais ganharia uma medalha como aquela. Nunca mais. Falou em passar o bastão para que a nova geração carregasse a natação brasileira nas costas e desse continuidade ao legado dele.

Foi uma baita declaração. O momento em que aquele cara, recordista mundial dos 50m e 100m livre, já mundialmente condecorado e um dia reconhecido como o melhor velocista do planeta, se esqueceu disso tudo. Naquele pódio, a medalha que Cielo tinha no pescoço era a mesma da dos outros três.

O revezamento é legal porque é o único momento em que um esporte essencialmente individual e solitário se transforma em coletivo. Claro, quando se ganha alguma coisa, tem muita gente por trás envolvida. Ninguém é ouro, prata ou bronze olímpico, mundial ou nacional sozinho, tem o técnico, a técnica, a nutricionista, o preparador físico, a psicóloga. Muita gente. Mas, no 4 x 100m, é diferente. Tem um time que entra na água. Você faz a sua parte e torce pelo outro. Você abraça e é abraçado no fim, é legal demais, não se contém a vibração, passa uma emoção contagiante.

Veja Michael Phelps, que parecia um louco desvairado quando conquistava medalhas com os compatriotas americanos. Honestamente, um cara como Phelps teria, mesmo, de se emocionar tanto assim? Afinal de contas, ali era apenas mais um ouro, nada que ele já não tivesse conquistado sozinho, de maneira muito mais difícil, sem dividir a atenção com ninguém. Mas é diferente. Revezamento é mesmo diferente.

Então, tinha muita coisa por trás do abraço de Santos, Chierighini, Fratus e Cielo. Nem sempre se sabe de tudo, de todos os detalhes, isso só interessa a cada um deles, na verdade, no fundo. Mas a mensagem foi passada, e dane-se se o ouro não veio, mesmo que tenha ficado tão perto.

Um dia depois, ver Nicholas dos Santos repetir a prata nos 50m borboleta foi igualmente incrível. Mas nem foi a primeira dele, alguém vai pontuar. No Mundial anterior já havia acontecido, prata, na mesma prova, mesma situação. Este ano, aliás, quem achou que os 28 centésimos do 4 x 100m livre eram pouco, o que dizer dos quatro centésimos (!) que tiraram o título mundial do brasileiro?

Tiraram o título mundial?

Foi um tempo que deu a prata a Nicholas. O medalhista mais velho da história dos Mundiais, com 37 anos. 37 anos que não pesam nem um quilo sequer a mais para ele, muito pelo contrário, o cara saiu da piscina sereno, com a tranquilidade de quem sabia que deu o máximo e conseguiu o que dava para conseguir ali.

Nicholas, no fundo, só queria uma coisa. Subir os degraus da arquibancada e dar a medalha, da cor que fosse, para o filhinho, que completaria 1 ano de idade no dia seguinte. Filho que ele fez questão de levar até a Hungria, assim como a esposa, como mais gente da família, porque o cara faz o que pode fazer quando está feliz, essencialmente, e nada poderia deixá-lo mais feliz do que aquela combinação, naquele momento, de estar ao lado do garotinho, de quem ama.

A medalha, no fim, vai ser do menino. Toma aí, brinca, ela é sua, tudo o que faço, faço por você, mesmo, só tenta não estragar, é legal o papai guardar, quando você estiver um pouco maior vou te contar essa história, de como nadei para você, venci por você, por mais que você não entendesse bulhufas do que estava acontecendo. E como, mesmo assim, deve ter passado uma força extra, porque não dava para chegar de mãos vazias, não teria como explicar que a medalha não veio, não aquela medalha.

Um sentimento muito similar coloca a prata do revezamento ao lado da prata de Nicholas. Duas conquistas que ficaram muito próximas de mudar de cor, poderiam ter sido douradas, mas que foram tão comemoradas como se tivessem sido. Não importa em qual degrau do pódio se ia subir, não importa quem estivesse na sua frente ou atrás, importa que a sensação de dever cumprido apareceu no fim do dia. E estar entre os melhores do mundo é muito difícil, é sensacional quando se está, e não dá para perder tempo lamentando isso ou aquilo.

Ouro, prata ou bronze. Uma é mais legal, sem dúvida, é diferente, não dá para ser hipócrita e dizer que não. Mas tem dia em que medalha não tem cor.

Nicholas dos Santos com a medalha de prata no pódio dos 50m borboleta

 

 

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