Nicholas dos Santos durante o Maria Lenk de maio de 2017, no Rio de Janeiro

(Nota do autor: eu não costumo, mesmo, escrever em primeira pessoa. Nada contra quem escreve, só não é meu estilo. Salvo quando a situação pede. Neste caso, achei curioso contar uma história. Por isso, abre-se a exceção.)

Em 2000, eu havia começado a trabalhar como repórter no jornal LANCE!, em São Paulo. Não era ainda, oficialmente, o responsável por cobrir natação. Havia outra pessoa na redação que fazia isso, mas ela ficava no Rio de Janeiro. Aos poucos, e definitivamente quando ela deixou a empresa, assumi a modalidade. Mas, até lá, quando rolava alguma coisa na capital paulista, eu estava lá.

Foi assim no Troféu Brasil de 2000, no Corinthians. Um dia, cheguei para trabalhar e o editor, à época, disse que um tal de Nicholas dos Santos havia obtido índice para disputar o Mundial. Ele me colocou dentro de um carro, com um fotógrafo, Reginaldo Castro, e disse que eu tinha de voltar do Parque São Jorge com um perfil do novato.

Cheguei ao Corinthians, à tarde, e procurei pessoas que eu conhecia. Sempre transitei bem no meio da natação, mesmo antes de ser jornalista. Mas não conhecia o Nicholas, nem mesmo de rosto. Não tinha internet como tem hoje, a tal coisa que, se eu digitasse o nome do cara antes de ir atrás dele, descobria até mesmo o histórico bancário.

Não foi difícil, claro, encontrar o cara. Estava sentado na arquibancada, conversando com outras pessoas. Vestia um moletom, estava de gorro, já havia nadado. Não cairia mais na água naquele dia. Eu me aproximei, me apresentei, oi, meu nome é Plínio Rocha, trabalho no LANCE!, já ouviu falar?, soube que você conseguiu índice para o Mundial, parabéns, deve estar feliz demais, né, mas tem um minuto aí para me dar uma entrevista?, tenho de escrever um perfil e falar para as pessoas quem é você.

Nicholas, claro, aceitou e foi muito solícito. Abriu um sorriso para falar do feito, disse o quanto havia treinado, como estava feliz por nadar em Fukuoka, no ano seguinte. Seria o primeiro Mundial de longa dele. O cara estava radiante.

E assim foi, batemos um papo de uns 40 minutos, ele falou sobre a carreira, Ribeirão Preto, contou como começou no esporte, quem eram os ídolos, aquelas coisas todas de uma primeira entrevista. Eu era um foca, termo usado para quem é novo na profissão, devo ter feito uma coisa bem arroz com feijão, hoje penso que teria escrito uma matéria melhor. Paciência, assim é a vida, a gente evolui, e o Nicholas, mesmo, continua evoluindo até hoje, aos 37 anos. Naquele dia ele tinha 20 e muito cabelo na cabeça, hoje anda meio careca.

Terminou a entrevista, eu agradeci, devo ter pedido telefone e e-mail, eu pedia telefone e e-mail para todo mundo, e eu me lembro que ele passou. Agradeci mais uma vez, disse que ligaria se tivesse alguma dúvida na hora de escrever a matéria, falei para ele comprar o jornal no dia seguinte, custava R$ 1, acho, era pouco e ele disse que compraria. E apertamos as mãos.

Nada demais, mas, aí, veio a parte final. O fotógrafo, claro, tinha de voltar para a redação com imagens do cara. Mas, lembre-se, ele já havia nadado, tomado banho, se secado, passado uns creminhos, sei lá, o cloro maltrata demais a pele, às vezes tem de passar creme, mesmo, senão fica com pele de 70 anos aos 30. A imensa maioria dos caras se contentaria com um “boneco”, como dizemos, do Nicholas, uma fotinho básica dele em pé, de lado, agachado do lado da piscina, esse tipo de coisa.

Mas não o Reginaldo. Ele chegou no Nicholas e disse algo na linha: “Cara, você é nadador, então, nada aí! Não vou tirar foto de um nadador fora da piscina, não dá, é tipo se contentar com um jogador de truco sem baralho, um boleiro sem bola, um carnavalesco sem fantasia”.

O Nicholas olhou para ele, tentou explicar, olha, já tomei banho, vou embora daqui a pouco, mas vou quebrar seu galho. E, gentilmente, voltou para o vestiário, colocou a sunga, o óculos, caiu na água e deu lá umas braçadas. Ele havia se classificado para disputar os 50m livre no Mundial, mas não me esqueço de que, no fim, o editor escolheu uma foto dele nadando borboleta, é melhor, ele me disse, aparece mais a cara dele, essas de crawl sobem muita água, sou o chefe e vai essa mesmo. Eu não concordei, mas, até para preservar meu emprego, disse “o senhor quem manda”, engoli o orgulho e foi aquela mesmo. No fim, talvez, tenha sido até coisa do destino, porque seria no borboleta que ele faria história, ao longo dos anos. Não acredito muito nessas coisas, mas vai que.

O Nicholas não precisava ter feito o que fez. Assim como a maioria dos fotógrafos teria se contentado com uma imagem qualquer, a maioria dos nadadores teria dito para o cara se virar. Depois que você já tomou banho e o escambau, é chato cair na piscina tudo de novo, repetir aquilo. Mas o cara foi compreensível, ajudou para que o resultado final fosse o melhor possível.

Faz 17 anos que isso aconteceu. Nunca mais fui a um Troféu Brasil no Corinthians. Nem Troféu Brasil se chama mais, mudou para Troféu Maria Lenk, bela homenagem, com a qual concordo. Não trabalho mais no LANCE!, não faço mais coberturas com esse fotógrafo. Cresci (na profissão), fiz muitas coberturas, virei editor, hoje vejo as coisas de uma maneira diferente.

E falei muitas, muitas vezes mais com o Nicholas. Em todo tipo de contato, mais pessoal, no bate papo, ou totalmente profissional, para alguma matéria. Escrevi linhas, linhas e linhas a respeito dele, nos momentos bons e ruins. Mas se teve uma coisa que não mudou absolutamente nada foi a maneira como ele sempre me tratou. A impressão que tenho é que, se eu pedir para ele cair na piscina, hoje, apenas para uma foto, ele faria, da mesma maneira de quando tinha 20 anos.

Em Budapeste, Nicholas vai disputar mais um Mundial. Já esteve em duas Olimpíadas, se eu não estou enganado. Fez índices, bateu recordes, ganhou medalhas de ouro, de prata, de bronze. Vai nadar na Hungria sendo o dono do melhor tempo do ano nos 50m borboleta e, por que não?, pensando em melhorá-lo ainda mais.

Nicholas está no auge aos 37 anos, contrariando a lógica do esporte e da vida, até, por que não. Mas não é apenas porque é um atleta dedicado, cuida do corpo, cuida da mente, renova seus objetivos e ama o que faz. Está no auge porque colhe o que planta, e é um baita dum sujeito.

Plínio Rocha escreve a coluna Na Raia na Best Swimming desde 2007. 

 

 

2 respostas
  1. L.Mesquita
    L.Mesquita says:

    NICHOLAS SANTOS é o nosso ULSEIN BOLT BRASILEIRO das piscinas, velocista nato, está literalmente VOANDO NA ÁGUA ???? com o MAIS RÁPIDO TEMPO DO MUNDO no BORBOLETA em 2017!!! Desejo-lhe MUITO BOA SORTE E SUCESSO em BUDAPEST!!!

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  2. LOZP
    LOZP says:

    me lembro do Nicolas nos Jogos Abertos de 1999, acho que ele treinava fora do Brasil na época. bateu o recorde dos 50 livre que era do Xuxa.

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