A crítica não é pessoal, não é dirigida a uma gestão, aos profissionais, aos clubes, mas a todos nós, e principalmente uma reflexão que se faz necessária. Estamos em crise, precisamos reconhecer. O modelo de gestão da natação brasileira faliu!

O momento não é positivo. Turbulência política, investigações do Ministério Público Federal, um fim de ciclo para a gestão Coaracy Nunes de 28 anos a frente da CBDA. Se formos aos clubes, temos redução drástica de orçamentos, demissão de profissionais, desligamento de nadadores, enxugamento de folha. A crise é muito maior do que se pensa.

Até a natação escolar foi abalada com o cancelamento da viagem da Seleção Brasileira para o Sul-Americano Escolar uma semana antes do embarque em evento previsto no calendário há mais de um ano e com convocação anunciada. Fomos o único país do continente ausente na competição.

As federações estaduais, com raras exceções, vivem as mínguas. Algumas funcionam nos porta malas dos presidentes, em situações improvisadas e precárias. Alguns Estados não participam de competições nacionais há anos.

O 2016 teve o cancelamento dos Campeonatos Brasileiros de Natação de Inverno em proposta apresentada por sugestão pela diretoria da CBDA para “focar mais na preparação olímpica do Brasil”. O país também ficou de fora da Copa Latina na Colômbia e do Mundial Júnior de Águas Abertas na Holanda, competições onde temos tido destaque e medalhistas no passado.

Vivemos num mundo de faz de conta no esporte nacional. Temos atletas universitários que não são universitários, nadadores que representam cidades do interior de São Paulo nos Jogos Abertos e nem sabem onde as cidades ficam e sem falar nas Seleções Militares, onde bolsas mensais transformaram civis em atletas militares com dois “boot camps” anuais.

Diferente da grande maioria dos países mais destacados da natação mundial, o Brasil tem um sistema clubístico muito forte. Os clubes são os maiores investidores, os maiores promotores do esporte. Os títulos nacionais por equipe têm uma dimensão que não se encontra lá fora.

Assim, este sistema clubístico promove o esporte de alto nível. Principais clubes investem bastante nas categorias principais. Para isso, anualmente vão buscar os maiores talentos na região Norte-Nordeste, no interior de São Paulo, nos menores clubes. O processo é recorrente, bons atletas revelados e a imigração natural para os principais clubes.

Tudo isso com premiação em dinheiro, salários que já começam no juvenil e se tornam praticamente imbatíveis a nível internacional quando falamos em termos de seleção brasileira. Os melhores nadadores do país estão entre os mais bem pagos do mundo.

Com o fim do ciclo Rio 2016, onde vivemos o momento mais “rico” de nossa história, vamos ter de nos adaptar a um futuro diferente. O “rico” não foi de conquistas, mas de investimento e dinheiro gasto na preparação, no salário dos atletas e de seus programas.

A realidade para 2017 é distinta, radicalmente diferente. O contrato com os Correios ainda não renovado, e se renovado, será bem menor. Isso já muda o modelo de gestão da CBDA, o modelo de gratificação dos atletas, das viagens para o exterior, do modelo de operação dos campeonatos nacionais.

Com a chegada das eleições da CBDA em março de 2017, seja Sérgio Silva pela situação ou Miguel Cagnoni pela oposição, um novo modelo precisa ser implantado no país. Os dois sabem e reconhecem isso.

Clubes já começaram a mudar suas políticas e ajuste de custos nos programas de alto nível. Um grande clube decidiu proibir qualquer atleta de treinar fora do país, uma política de valorização para quem treina no próprio clube, atitude compreensível, mas ao mesmo tempo, segue em busca de reforços em outros programas.

Outras grandes equipes começaram suas reduções dispensando nadadores. Alguns figurões, outros nem tanto, gente que ganhava bem e outros quase nada, é uma mudança radical no cenário nacional.

A disputa clubística inflacionou a natação brasileira há muito tempo. Tirar um atleta juvenil em um programa em desenvolvimento pagando alguns trocados virou algo simples e rotineiro.

Enquanto isso, treinadores seguem subvalorizados. Salários defasados e desconectados com resultados e conquistas alcançadas. Todos anos, estes profissionais sentam-se a mesa para discutir quais atletas serão “contratados”, enquanto suas remunerações seguem estagnadas.

Clubes menores que vivem de ajudas e mesadas dos municípios do interior sabem que tais verbas serão reduzidas e algo precisa ser feito antes que seja tarde. O esporte é importante, mas um município tem outras prioridades a frente da natação competitiva.

Não acho que exista uma fórmula mágica de sucesso para resolver tudo isso. Acho que o esporte é cultura, cultura é educação, e educação é responsabilidade da família. É assim nos Estados Unidos, nos principais países do mundo.

Lá fora, entidades governamentais são responsáveis pela administração, pela gestão, pelas estruturas físicas e pelas competições. Nosso modelo é totalmente distinto e não é surpresa que tenha fracassado.

O modelo de gestão precisa ser repensado, um ajuste nos clubes, um trabalho diferenciado com escolas, com a iniciativa privada, precisamos pensar diferente. Do jeito que está, não pode e nem vai continuar.

Este editorial não traz soluções, mas reflexões. Também não há certezas, e sim muitas dúvidas. A natação brasileira não acabou, jamais vai acabar, mas o modelo de gestão faliu e precisa ser mudado.

8 respostas
  1. Franklin F. Rodrigues
    Franklin F. Rodrigues says:

    Ótimo raio-X. Um profissional que leva a sério a análise da natação brasileira e faz um raio-X desse merece nosso reconhecimento. O que se faz a partir de um raio-X? Diagnostica as soluções para os problemas. Um deles: a falta de lideranças com a exaustiva dependência às referências que não sabem liderar. Liderar dentro da perspectiva democrática.

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  2. Francisco Dantas
    Francisco Dantas says:

    Parabéns Alexandre Pussieldi!!! Há muito tempo eu estava procurando um artigo jornalistico ou apenas alguma opinião sobre a real situação do esporte brasileiro ou de qualquer outra modalidade, como a natação. As vezes eu ficava pensando: “Não é possível que ninguém vá dizer nada sobre o que está acontecendo”.Quem olha de fora vê o caos que é essa modalidade no Brasil, mas parece que todo (quase) todo mundo tem receio de falar alguma coisa, por vários motivos; ou político ou financeiro, ou os dois juntos.

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  3. Gabriel Lins
    Gabriel Lins says:

    Aqui na USP tem moleque de 20 anos nadando 50 livre pra 23 segundos, outro de 19 nadando 100 costas para 54 alto… O problema é que são totalmente ignorados, assim como o esporte universitário como um todo, eles não veem motivos pra treinar ainda mais forte e tentar descer ainda mais o tempo sabendo que jamais vão ser olhados pq não entraram num clube quando pequenos. Nós universitários sabemos o quanto temos nos estruturado e o potencial que temos, mas é praticamente impossível (não só na natação) com esse sistema atual nos ignorando…

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  4. nadador
    nadador says:

    Precisamos voltar a realidade brasileira, onde a falta de recursos sempre existiu. Esse último ciclo olímpico foi marcado pela falta de planejamento e dinheiro fácil gasto de forma errada, onde a maioria de nossos atletas usufruiu e achava que era eterno.
    Além da CBDA , os clubes foram culpados pois bancaram o sonho e não trouxeram os atletas para a realidade brasileira.
    Infelizmente a educação segue longe destes atletas. Como você cita , muitos estão sempre atrás de uma verba extra e nunca pensam no que farão quando a carreira terminar.
    Por um lado tenho a esperança que com essa crise muitos dos atletas repensem o que realmente querem e se vale a pena deixar a educação de lado.
    Chegou a hora dos clubes repensarem também em como fazer esporte. O mundo e o Brasil mudaram. O esporte mudou, mas na área esportiva continuamos no século passado.
    Atletas que tiverem a oportunidade devem ir embora para os USA em busca de educação de qualidade. O melhor caminho é esse. Ou vocês acham que o Brasil poderá oferecer algo melhor.
    Brasil precisa mudar radicalmente a maneira de fazer esporte.

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  5. Valdemar Lima
    Valdemar Lima says:

    Coach, a falência é evidente, mas não foi citado aqui o Ministério do Esporte, que no meu entendimento também tem sua parcela de culpa, há quanto tempo eles atrasam o pagamento do Bolsa Atleta, este ano por exemplo estamos em dezembro mês que eles deveriam quitar as 12 parcelas, no entanto a maioria dos atletas receberam apenas 2 parcelas. E aqueles atletas que tinham direito a 12 parcelas do Bolsa Pódio e por uma sugestão INFELIZ do Ministério do Esportes foram obrigados a abrir mão desse benefício, você sabia disso??? Eu também não tenho a solução, mas entendo que para começar do zero primeiro tem que regularizar as pendências….Aqui é o Val.

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    • nadador
      nadador says:

      Val
      Infelizmente o governo e suas políticas erradas acabaram com o esporte. Claro que a bolsa atleta é importante, mas novamente estamos pensando pequeno. O governo tinha sim que investir em estrutura física, bons campeonatos e qualificação de profissionais. Não podemos depender de bolsa atleta para formar campeões.
      De novo insisto que esporte praticado nas escolas com campeonatos escolares fortes seria uma das saídas para o caos que se encontra o Brasil.

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  6. Ricardo Cabral
    Ricardo Cabral says:

    Coach, há muito tempo não lia um artigo sem estar contaminado por uma posição política. O diagnóstico feito para o esporte brasileiro ( sim, esporte brasileiro e não só a natação) é perfeito. Não é preciso fazer uma analise do ambiente onde opera nosso esporte para chegar à essa conclusão. Nossa base esportiva sempre foi e ainda será nos clubes ( infelizmente). Um modelo que visa muito mais resultados do que a formação. Um modelo onde quem tem mais a oferecer leva. Por outro lado uma política esportiva pública muito tímida que não alinha e integra o esporte de formação com o alto rendimento. Um país de dimensões continentais que não tem um Centro de Treinamento de excelência pelo menos em cada região do país. Agora a coisa vai complicar mais ainda, pois com uma recessão forte, o dinheiro sumiu, e sumiu, no andar mais alto onde caía toda a responsabilidade sobre o esporte. Tudo se cobra da CBDA, como ela fosse a responsável por todas as áreas de ações esportivas. Enquanto tinha verba para mandar equipes para fora, fazer eventos nacionais, preparar equipes e Comissões Técnicas, a crítica recaía em áreas onde ele seria coresponsável, como por exempolo fomento ao esporte, formar atletas e etc. Agora a verba acabou para todos. Precisamos nos reinventar ou copiar e adaptar outros modelos. Quero ver atletas de base pagarem viagens internacionais como pagam atletas nos EUA, Australia, Canada entre outras.

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