Papo de Olímpico: Cadê a medalha?

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Bruno Fratus durante final dos 50 metros livre no OAS. Jogos Olimpicos Rio 2016. 12 de Agosto de 2016, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Foto: Satiro Sodré/SSPress
FABIOLA MOLINA

Caro leitor! Você sabe o que ocorreu com a seleção brasileira de natação na Rio 2016? Vou explicar com referências e números para chegar a conclusão de que é preciso mudar. E precisa ser agora! De acordo reportagem do site UOL, o “COB está insatisfeito com o resultado da natação e a gestão da CBDA”. Já o blogueiro da ESPN Antônio Strini jogou um número e uma constatação: “122 milhões de investimento sem medalhas na natação”. Os principais veículos de comunicação divergem da versão oficial da confederação, que exaltou as oito finais conquistadas. Mas afinal é para ficarmos tristes ou felizes?

Claro que a falta de uma medalha sempre assusta e decepciona, principalmente para aqueles que não acompanham a natação de perto, ou seja, a maioria da população, infelizmente inserida na monocultura do futebol. Sair de uma olimpíada sem pódio dificulta a justificativa do tamanho do investimento na modalidade e diminui sua popularidade no país. Acredito que além do número de finais conquistadas, a falta de medalha serve para repensarmos nossos conceitos, estratégias e gestão, e aceitarmos nossas limitações.

A realidade da natação brasileira é outra! Temos que ser humildes em admitir que o investimento não está sendo bem feito. O benefício do Bolsa Atleta, o contrato dos Correios, os treinamentos na altitude no Arizona (EUA) e México, as competições no exterior parecem não servir mais. Essa fórmula visivelmente está ultrapassada e temos que ir além.

Temos que reorganizar, reinventar, só assim ficaremos livre da “sorte” de aparecer um talento para nos iluminar com uma medalha. Nós ainda falamos de Ricardo Prado, Gustavo Borges, Fernando Scherer, Cesar Cielo e Thiago Pereira. Vivemos de um passado esperando que a sorte apareça em um futuro breve.

Mas na prática, precisamos que a Confederação refaça seus investimentos e tenha uma reformulação imediata em seu comando. Necessitamos gestores jovens, com novas ideias e com vivência para  ajudar nas metas da natação. Estamos no ciclo olímpico para Tóquio 2020 com gestores do ciclo de Seul (1988) e Barcelona (1992). Dos R$ 122 milhões repassados à CBDA, não teria como deixar um Centro de Treinamento de Alto Rendimento como legado? Será que somos tão orgulhosos em achar que temos excelentes piscinas espalhadas pelo país?

Dos técnicos precisamos uma força maior, uma união, troca de conhecimentos e interesse por reciclagem. Quando é que um técnico consegue ouvir o planejamento do outro e discutir sobre isso? No Brasil, nunca! Um congresso anual dos técnicos para discutir ideias e propor novos pensamentos e estratégias de treino seria um grande passo para a natação.

Nos clubes a gestão do protecionismo não funciona. A instituição tem que entender que o melhor para o atleta não é necessariamente o melhor para o clube. Nem sempre obrigar o nadador a treinar nas dependências é a melhor solução e os técnicos precisam entender isso também. Nos últimos 32 anos, todas as nossas medalhas vieram de atletas que treinaram nos Estados Unidos, com exceção de Edvaldo Valério, que fechou o revezamento 4×100 m livre, bronze em Sydney 2000. Coincidência? Claro que não, os norte-americanos conquistaram 50% das medalhas de ouro disputadas no Rio. Então como que uma temporada treinando nos EUA seria ruim para a formação do atleta? Não faz o menor sentido! Proteger, amedrontar, cortar ajuda de custo não é o ideal. Teríamos que exaltar, estimular, aplaudir quem decide treinar fora, pois esse atleta quer aprimorar e buscar algo a mais em seu treinamento que ainda não tem aqui.

As oito finais conquistadas na Rio 2016 é para preocupar. Temo que caiamos na armadilha de que tudo está bom e que nada precisa melhorar. Alguns dizem que estamos em um período de transição como em 2004, porém em Atenas tínhamos o Thiago e Joanna finalistas olímpicos com menos de 20 anos. Enquanto que no Rio, todos os 6 finalistas tinham mais de 25 anos. Hoje a realidade é outra. A Grã-Bretanha, por exemplo, insatisfeita com os resultados de Londres 2012 onde conquistou 3 medalhas, renovou todo seu staff mudando a filosofia de trabalho. No Rio, o time GB dobrou o numero de medalhas conquistando 6 sendo 1 de ouro.

Não há nada de errado em sermos humildes e admitir que precisamos mudar. Nós temos que mudar e a hora é agora!

15 Comentários

  1. O problema esta na base , temos verdadeiros talentos escondidos sem patrocínio ou apoio. Natação não é um esporte barato mas cadê as escolas patrocinando campeonatos enter elas e revelando talentos marcas nacionais produzido materiais mais caro que os vendidos fora do país . Em nossa realidade educação e esporte é algo que anda separado ,pois tenho esta ralidade em minha casa ,meu filho é atleta de um clube e o colégio tem uma senhora estrutura com piscina mas não investe em esporte e quando são abordados a resposta é sempre a mesma aqui é um colégio e não uma academia ou clube , bem ai a casa cai.
    Veja a maratona aquática, com está extensão de litoral e só três atletas nas olimpíadas .
    Na Bahia temos apenas uma piscina olímpica pouco utilizada e sem vestiários e banheiros , não temos nem o que falar .
    As universidades cobram verdadeiras barbaridades de mensalidade e nada de esporte . Técnicos de natação não são apoiados pelos seus clubes para fazer cursos e intercâmbios.
    Bem desculpe o desabafo mas a reportagem fala não só apenas de natação mas de todos os esportes pouco privilegiados com verbas e patrocínios nababescos como o que acontece com o futebol.

  2. O texto aborda o assunto de forma parcial, na medida em que restringe o incontroverso insucesso da natação a gestão da CBDA, técnicos e clubes.
    E os atletas, será que não têm nenhuma parcela nos resultados?
    Por certo que mudanças são necessárias nos três pontos abordados no texto, mas omitir a parcela que compete aos nadadores soa como coorporativismo.
    Talvez esteja equivocado na minha colocação, mas não penso que a não classificação de César Cielo para os Jogos Olímpicos, com todo respeito que ele merece, não decorre da má gestão da CBDA ou da falta de comunicação entre os técnicos, tampouco do protecionismo dos clubes.
    Se efetivamente quisermos promover mudanças, o recomeço deve se estender a todos, como bem ressaltado, com humildade.

  3. A CBDA tem que investir na base, na formação. Não adianta investir só na seleção adulta.
    No Rio de Janeiro, por exemplo, a falta de estrutura é uma vergonha, a Federação diz que não tem dinheiro e que não recebe ajuda. Os pais fazem vaquinha para que os jovens possam viajar para as competições, e diante de tantas dificuldades muitos acabam desistindo.

  4. Acredito que há sim vários problemas, mas no momento que citam que 3 meses antes houve o ápice dos atletas em questão de rendimento e próprio tempo deles é claro pra mim como profissional da área, que o erro é de treinamento,macro ciclo. Erro de planejamento e execução. Infelizmente!

  5. Caro Henrique
    Parabéns pelo texto concordo em quase tudo que você falou, mas acho com sinceridade que o problema é muito maior. Fui atleta de natação na década de 80 (eu sei que faz muito tempo) mas nesse tempo passamos por 84 com Ricardo Prado favorito e choramos sua prata, e por incrível que pareça comemoramos a final do Rogério Romero em Seul. Talvez seja pouco comparado com o que temos hoje mas vale lembrar que tínhamos quase nada de apoio Projeto Mescla e Kibon e quase nada mais. Mas os brasileiros de qualquer categoria eram lotados de atletas com eliminatórias de demoravam 4hs. Quando vemos número de atletas no Finkell vemos talvez a principal causa. Falta nadadores. Talvez baixar índices e fazer os atletas pararem em maior número, principalmente em categorias mais jovens. Eu sei que isso não da “Ibope”, nossos dirigentes continuam fazendo alarde com mundiais de piscina curto e pan americanos.
    abraço

  6. Um item que não sei se é de conhecimento da msioria, mas a CBDA deixou de enviar a seleção brasileira de maratonas aquáticas das categorias de base para o mundial justsmente com a justifica de que não havia mais verba pois teve muitos gastos na preparação dos atletas para as olimpíadas.
    Com certeza depois dessa, nós brasileiros que vivemos no mundo da natacão seja com filhos, amigis e conhecidos, ficamos msis indignados ainda.

  7. Precisamos sim de muita humildade. Sabemos que se possuirmos um calendário , onde tbm estejam marcados datas para as grandes peneiradas, grandes festivais de não federados, congressos, Workshops para técnicos junto com seus pupilos; formando assim um grande time para enfrentarmos grandes países de igual para igual.
    Não tem segredo, tem que ter mais amor e o dinheiro bem investido.
    Unir forças, trabalhar e formar uma grande equipe. Desde aquele professor do início das primeiras braçadas.

  8. Caro Carlos Oliveira,
    acredito que a preparação olímpica foi a mesma usada para os Jogos Pan-americanos, porém no Canadá praticamente toda a seleção melhorou seus tempos e no Rio isso não aconteceu.
    Uma reavaliação dos técnicos tem que ser feita. Por isso, um congresso entre os técnicos tem que ser feita, para que justamente nossos profissionais sempre possam evoluir tanto na base quanto no alto rendimento.

  9. Na verdade falam muito sobre o quão ruim foi a natação brasileira na Rio 2016, mas a situação ruim que ela se encontra não é de agora. A falta de gestão dessa modalidade é de desde sempre. Acredito que a natação do Brasil precisa começar algo. Não há recomeço pois nunca houve inicio. Não temos métodos, não temos técnicos, não temos investimento na base, e principalmente não universalizamos a prática da natação em todos os estados. Gostaria de saber se esses centros esportivos que foram construídos serão realmente usados, pois com bons programas (e a longo prazo) poderá dar frutos daqui a alguns anos.

  10. Ha muito tempo me pergunto a razão de não haver no Brasil um nadador ou nadadora como nos USA! Lá aparecem vários talentos. Acredito que no Brasil também haja muitos talentos mas esses talentos não conseguem produz uma natação competitiva a nível internacional. Será que não há treinadores no Brasil como há nos outros países que ganham medalhas em mundiais e olimpíadas?
    Tá na hora de mudar sim é essa mudança já deveria ter sido anos atrás mas infelizmente não aconteceu. Então que seja agora para vermos em Tóquio uma seleção competitiva e com medalhas tanto no feminino como no masculino. E se a opção é ir treinar fora do Brasil que seja.
    Ótimo texto coach

  11. Nós atletas temos que boicotar alguma competição e aprnas voltar a competir quando houverem eleições. E quem tem q votar somos nós e não as fererações estaduais, sao todos comprados!

  12. Henrique

    Primeiramente queria te parabenizar pelo excelente texto. No texto você citou o que realmente está acontecendo com a natação brasileira e com a administração da mesma. Te conheço a muito tempo desde a sua época de Juvenil e sabemos que você é a pessoa certa pra falar o que falou. Dediquei 18 anos da minha vida profissional com a natação e foram varios titulos conquistados. Hoje ainda trabalho atendendo atletas da natação mas infelizmente não pude continuar a trabalhar nesse esporte fabuloso que eu tanto me dediquei por justamente apresentar “os problemas” politicos e administrativos citados no texto acima. Queria ter conquistado as medalhas olimpicas e mundiais juntos com todos os nosso meninos e meninas da natação, porem isso não foi possível, pois tive que voltar a trabalhar com o futebol para ser reconhecido e respeitado com fisioterapeuta do esporte há 20 anos. Grande abraço!!!

  13. Henrique
    Me preocupou mais que tudo nossa incapacidade de melhorar ( nem MANTER ) a grande maioria dos tempos da Seletiva de 3 meses antes…isso para mim é o que mais desabona o trabalho de técnicos.
    Compare com europeus que selecionaram com 3 meses tb, ou americanos (com 3 semanas), e verá que fomos piores que quase todos no quesito evolução, polimento, manutenção, seja o que for.
    Queria tua opinião, que viveu isso em outras olimpíadas!!

  14. Acho que para o grande público, a ausência de medalhas foi o ponto mais marcante, mas para quem acompanha natação e por algum instante deixou a razão ser mais influente que a emoção, sabia que a chance de sairmos dos Jogos sem medalhas era, sim, real. E neste caso, o que mais foi preocupante foi constatar que a grande maioria dos atletas não foi capaz de, pelo menos, nadar próximo do seu melhor tempo da temporada. Sem querer criticar qualquer atleta da seleção diretamente, até porque é claro que todos que lá estavam treinaram e queriam muito fazer o grande resultado de suas vidas mas, quando vemos um atleta que chega neste nível piorando 6 segundos do seu melhor tempo numa prova de 200 metros, quando vemos que a maioria não conseguia nadar melhor nas semi-finais, ou outros tantos perderam a chance de estar na final e assim o fariam se tivessem nadado pelo menos para perto do melhor tempo, só podemos chegar a conclusão de que algo deu errado. Foi pouco tempo de aclimatação ao horário da competição? Foi a falta de preparação psicológica pra nadar sob a pressão de 14 mil torcedores? Foi excesso de empolgação? Não sei…

    Só sei que se o presente é preocupante, o que pensar do futuro? Acho que em 2016, tão marcante quanto a ausência de medalhas nos Jogos Olímpicos, foi o cancelamento dos brasileiros de inverno de categoria. O primeiro nos diz sobre a nossa presente situação, o segundo nos liga a luz de alerta para o futuro da natação brasileira.

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