Cabelo castanho, engomado, franja de lado, todo arrumadinho. Camisa e calça sociais. Sobrancelhas tímidas, sem agressividade. Passos curtos, cuidadosos, cabeça baixa. Tom de voz baixo, com palavras educadas, respiração longa e pausada a cada resposta. Olhos pedindo, pelo amor de Deus, por perdão.

Esse foi o Ryan Lochte que, certamente orientado por um profissional que cuide da imagem dele, apareceu no estúdio da Rede Globo, em Nova York, para tentar explicar ao Brasil inteiro por que fez a bagunça que fez no Rio de Janeiro e, dias depois, saiu fugido para os Estados Unidos.

Mas, mesmo depois de mil súplicas por perdão e uma certa mea culpa, sem admitir ter mentido no episódio.

Não, o nadador americano não disse algo na linha de “fiz merda, menti, não deveria, sei lá o que me deu, sou um maluco, estava completamente errado a respeito de tudo”. Ele não fez isso. Mas, bem ou mal, apareceu lá dizendo que estava “110% arrependido”, que amava o Brasil, os cariocas são o máximo, o país e a cidade são lindos, que nunca mais vai fazer algo parecido.

Lochte, claro, está completamente perdido. Afogou-se em uma piscina diferente daquela que lhe deu 12 medalhas olímpicas, ao longo da carreira, e fez dele um dos nadadores mais vitoriosos da história.

O gringo já sabia o que estava por vir. Tomar uma punição do comitê americano, ter de pagar uma multa qualquer, talvez até mesmo ser proibido de voltar ao Brasil, um dia. Nada disso teria um impacto a ponto de impedir que ele ficasse verdadeiramente preocupado. Mas mexer de maneira significativa com o bolso, ah… Isso, sim, era um problema considerável. Que poderia causar estragos monumentais. E foi justamente isso o que aconteceu.

Lochte perdeu quatro patrocinadores gigantes. Speedo, Ralph Lauren, Airweave e Syneron-Candela anunciaram que não são mais parceiros do nadador. Segundo um site americano que faz levantamentos sobre finanças, em geral, as empresas foram responsáveis, até hoje, por cerca de 92% de tudo o que ele ganhou na vida. Isso significa cifras que giram na casa de R$ 51 milhões.

Uma tragédia. Quase impossível de ser medida. Principalmente porque isso não significa apenas perder patrocinadores que tinha. Mas, também, a quase certeza de que não aparecerão novos. Ryan está relativamente bem estabelecido na vida, financeiramente, mas tenha certeza de que gente desse calibre, quando esse tipo de coisa acontece, sente demais. Demais. Com ele, não será diferente.

É uma baita porrada. Há quem ache exagerada. Há quem ache merecida. Indiscutivelmente, causada por erros que ele próprio gerou. E, talvez pior, que insista em sustentar, sem admitir, verdadeiramente, ter mentido.

Nem mesmo os amigos que estavam com ele na arruaça parecem mais estar do lado dele. Gunnar Bentz, Jack Conger e Jimmy Feigen não pensaram duas vezes antes de jogar a culpa de tudo o que aconteceu em Lochte. “Ele inventou a mentira toda”, foi o que disseram às autoridades. São caras que não têm a mesma representatividade que ele tem, mas que, certamente, pensaram no futuro. Não estão com o pé de meia feito nem sequer com o nome gravado na história do esporte.

Lochte sempre foi o “malandrão” da equipe de natação americana. Sempre foi o descolado, o extravagante, o folgado. Até aí, nada de errado. Se gostava de usar roupas e tênis escandalosos, protetores bucais que chamassem a atenção, pintar o cabelo de rosa, azul, verde, amarelo, roxo, o que fosse, azar ou sorte dele. Não existe absolutamente nada de errado nisso, muito pelo contrário. Todo mundo gosta quando aparece um cara assim, que quebre o gelo, mude os protocolos. Faz bem e tira o cotidiano do mais do mesmo, o que também cansa, às vezes.

Mas ele cruzou uma linha perigosa. Cometeu um crime, ao fazer um anúncio falso de um incidente policial. Em um país que não era o dele, e que, naquele momento (e sempre, na verdade), lutava desesperadamente para que justamente esse tipo de coisa não acontecesse, porque todo muita gente já havia viajado para o Rio esperando ser assaltada, agredida, furtada, sequestrada. Era uma preocupação gigantesca da cidade evitar que esse tipo de coisa acontecesse, porque, além de ser um acontecimento terrível para qualquer um, não apenas turistas, era o momento em que o mundo inteiro estaria de olho para criticar, apontar o dedo, detonar o sistema de segurança nacional. Não aconteceu, ou, se aconteceu, não foi nessa dimensão.

Fosse na Suíça, que parece não sofrer de maneira aguda com esse tipo de coisa, e a história poderia até mesmo ser minimizada. “Sai daqui, moleque trouxa, vai bancar de espertão e babaca nos Estados Unidos, não aqui”, diriam. Mas, no Brasil, não. Não dava para ficar por isso mesmo. Um cara qualquer aparecer, fazer o que quisesse, pintar e bordar, fugir para casa e isso ser tratado como algo “rotineiro”? Simplesmente, não dava.

A consequência está aí. E, certamente, mais coisas virão. Não, ninguém quer que Ryan Lochte seja crucificado, açoitado em praça pública para o regozijo popular. Mas ele errou, e feio, e precisa pagar por isso.

Afinal, como dizem os próprios cariocas, se não sabe brincar, meu amigo, não desce pro play.

 

3 respostas
  1. Amado
    Amado says:

    Uma coisa é certa, ele mesmo nadando mal ganhou mais medalhas do que toda a seleção brasileira, por isso em vez de atribuírem tanta importância a este facto deviam era fazer o balanço de todo o investimento que foi feito. Espero que este episódio lhe sirva de lição e que voltemos a ter o Ryan de há uns anos atrás.

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  2. Dudu Saquarema
    Dudu Saquarema says:

    Esse foi o texto que escrevi no facebook, lamentável a atitude infantil e pior ainda, não reconhecer o erro. Por enquanto são quatro patrocínios, o que mais ele perderá?
    “Que sirva de exemplo para nossos jovens.
    Você tem um ídolo no esporte, torce para o sucesso dele, torce para que ele faça o melhor e alcance o seu objetivo.
    Ele vai lá, faz seu trabalho certinho, ganha uma medalha de ouro e comemora, e você junto, feliz pelo feito, por seu ídolo e portador de uma técnica espetacular, ter dado mais um exemplo de onde pode chegar quem se dedica.
    Os dias passam e de repente.?!?!?!
    O cara faz uma besteira absurda, que teria uma repercussão pequena, não fosse o comportamento infantil e totalmente inaceitável de MENTIR.
    Quem conhece Ryan Lochte sabe o quanto ele é bom no esporte que pratica, sabe também que ele tem uma característica extrovertida, usando roupas (principalmente tênis) bem espalhafatosos, aqui inclusive, veio com um cabelo diferentaço, chamando a atenção, como sempre.
    Foge da responsabilidade, volta pro seu país, depois de fazer baderna no país que o recebeu tão bem, chega lá pinta o cabelo, bota uma roupinha de pastor evangélico, e diz que “apenas exagerou” nas palavras.
    Que ridículo cara. que exemplo de titica que vc deu para seus fãs.
    Você tem crianças e adultos que torcem por vc. Mentir é feio e vc acaba passando por ridículo.
    Continuo admirando o atleta, mas o homem tem muito que aprender.”

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