Thiago Pereira merecia a medalha

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Michael Phelps e Thiago Pereira, lado a lado: foi no Rio, mas poderia ser em Atenas, Pequim, Londres, Barcelona... (Crédito: Satiro Sodré/SSPress)
FABIOLA MOLINA

Queira você admitir ou não, Thiago Pereira está na elite mundial dos 200m medley há 13 anos. Estar na elite não significa, necessariamente, ser primeiro, segundo ou terceiro, posições que ele ocupou, sim, eventualmente. Estar na elite significa estar entre os melhores.

Em 2004, na Olimpíada de Atenas, aos 18 anos, ele terminou a prova na quinta posição. Michael Phelps ficou com o ouro.

Em 2008, na Olimpíada de Pequim, melhorou um posto e ficou em quarto, aquele amargo quarto, o primeiro que não vai ao pódio na natação. Phelps, mais uma vez, levou.

Em 2012, na Olimpíada de Londres, repetiu a quarta colocação, e só não foi mais doloroso porque, naqueles Jogos, ele ficou com a prata nos 400m, tirando um peso enorme das costas, um peso que já se fazia injusto com Thiago. O ouro nos 200m? Phelps, de novo, claro.

Em 2016, na Olimpíada do Rio, Pereira não nadou bem. Fez uma estratégia ousada, saiu com força para querer ganhar a prova, mas cansou, no fim, e terminou em sétimo. Ainda assim, na final. Na elite. Phelps levou o tetra.

Além disso, Thiago conquistou uma medalha de bronze nos 200m medley no Mundial de Barcelona-2013. E foi bicampeão pan-americano.

Tudo isso, em apenas uma prova. Mas o brasileiro é mais do que isso. É, por exemplo, o maior medalhista da história dos Pans, com 23 pódios. Não é pouco, e não importa o que você diga, que Pan não é tão importante, que Estados Unidos e Canadá não mandam as equipes principais, blá-blá-blá. Se está lá, que se nade, e se se nade, que se vença.

Fora da piscina, Thiago sempre teve uma postura correta. Não apenas em não se envolver em polêmicas, mas pelo profissionalismo. Começou a carreira tímido, era ruim na oratória na hora de falar no microfone e, assim, atingir um número maior de pessoas, mas até nisso se desenvolveu. O Thiago de hoje é bem resolvido, esclarecido, um exemplo em muitos aspectos.

Numa final olímpica, dizem, todos os que estão ali são merecedores. Todos abriram mão de muita coisa na vida até aquele momento. Todos sofreram em treinos diários. Todos deixaram a vida pessoal em segundo plano, fizeram mudanças radicais, se distanciaram de pessoas e coisas que são importantes. Todos desprenderam partes importantes, sejam materiais ou não, para chegar naquele momento. O Deus que olha um, queira ou não, olha todos, então não tem essa de que um merece mais do que o outro, todos são iguais e merecem vencer.

Quer saber? Dane-se. Thiago Pereira merecia a medalha nos 200m medley. E ela era possível. Se tivesse uma bola de cristal e soubesse que o bronze do chinês Shun Wang sairia para 1min57s05, tempo que superou algumas boas vezes na carreira, teria feito estratégia diferente. Mas não tem a tal bola, jamais teria, e acabou cego pelo sonho de subir ao lugar mais alto do pódio, talvez, em frente da torcida que sempre torceu por ele de longe, mas, agora, estava ao lado, gritando o nome dele como nunca.

E sim, foi esse o pensamento, de ganhar a prova. Ele mesmo disse, depois, que saiu com tudo para brigar com Phelps pelo ouro. Não deu. Nem daria, fatalmente, mas uma medalha, uma prata ou um bronze, Thiago merecia. Por tudo o que fez, por tudo o que lutou, por tudo o que representou, pelo fato de esses Jogos serem no Rio, o que o fez sonhar de uma maneira que nunca havia sonhado. Mas, principalmente, pela pessoa que é.

Não deu.

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