O choro de Yulia Efimova

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Yulia Efimova não segura o choro depois da final dos 100m peito. Emoção? Não. Culpa! (Foto: reprodução de TV)
FABIOLA MOLINA
Yulia Efimova (à esquerda) no pódio dos 100m peito: as americanas não a cumprimentaram
Yulia Efimova (à esquerda) no pódio dos 100m peito: as americanas não a cumprimentaram

Os minutos iniciais seguintes à final dos 100m peito feminino foram emblemáticos no Estádio Aquático, no Rio. A americana Lilly King, ouro, ainda abraçava a compatriota Katie Meili, bronze, e uma cena chamava a atenção no fundo.

Tratava-se da entrevista de Yulia Efimova a um canal de televisão. A russa acabara de conquistar a medalha de prata, uma surpresa, até, porque não seria um absurdo se vencesse a prova. E, naquele momento, não se aguentava de tanto chorar.

Se você não sabe, a história de Efimova conta que ela testou positivo num exame antidoping em 2013 e foi suspensa por 16 meses, voltando à ativa no começo de 2015. Esteroide anabolizante. Não teve conversa.

Pouco mais de um ano depois de ser liberada e voltar a nadar, ela foi flagrada de novo. Desta vez, com uma substância chamada meldonium. É um medicamento que, entre outros, combate arritmia cardíaca. Mas tem efeitos que mascaram doping e, por isso, não pode ser utilizado sem prescrição. Aconteceu com ela e veio a segunda suspensão.

Resumindo, Efimova foi punida, apelou a todas as instâncias do esporte e foi liberada para nadar no Rio há apenas alguns dias. Uma maluquice, um furacão na cabeça dela, certamente.

A russa, no fim, caiu na malha fina do atual momento que o país dela atravessa nesse assunto. Descobriu-se que o governo federal russo acobertou um esquema sofisticadíssimo de doping. Um absurdo. Muita gente saiu desse episódio com o nome manchado, muitos nadadores.

Depois da prata, tudo isso veio à mente de Efimova, e ela não aguentou. Desabafou e disse que estava sendo julgada apenas por ser russa. Era um fardo, de fato, pesado de se carregar.

King detonou a adversária. Sem dó. Logo depois que saiu da piscina, disse que estava feliz e se sentia honrada por competir pelos Estados Unidos estando limpa. Mais tarde, na sala em que concederam entrevista coletiva à imprensa, continuou batendo na europeia. Yulia, ao fundo, cabisbaixa, chorava ainda mais. Abaladíssima.

É uma situação complicada. Efimova, ao que parece, pisou na bola. Na primeira vez, ficou praticamente impossível defendê-la, seja como fosse. Na segunda, de longe, fica complicado palpitar. O remédio era para o coração, mesmo? Tratou-se de um problema de comunicação, por ela não ter alertado o uso de uma substância nova na lista das proibidas? É o mesmo caso da tenista Maria Sharapova. Mesma medicação, mesma circunstância. Por que acreditar em uma e não em outra?

Porque o peso que Efimova carrega é, e sempre será, muito maior, a partir de agora. Tão necessário como treinar a natação será preparar o aspecto psicológico para isso. A russa será, eternamente, uma dopada aos olhos de muita gente. No Rio, mesmo, muita gente estava na arquibancada e nem sabia exatamente o que havia acontecido, mas fez questão de vaia-la cruelmente quando apareceu para a prova. Quando Lilly bateu na borda em primeiro e garantiu o ouro, o estádio veio abaixo.

Não se trata de uma defesa a Efimova. Jamais. Nem a Sun Yang, que sofreu o mesmo tipo de perseguição nesta Olimpíada. A teoria, aqui, foi ampla e maravilhosamente abordada pelo amigo Alexandre Pussieldi, editor chefe deste Best Swimming, em um editorial publicado nesta semana. Nele, pede-se que não se vaie os atletas que convivem com esse fantasma do doping. Defende-se que eles erraram, mas pagaram pelos erros. Ponto final, vida que segue.

Tente imaginar o peso que Efimova carrega. Tente imaginar o que é ser tachado dessa maneira. Em uma comparação extrema, os alemães comandados por Hitler catalogavam e identificavam judeus nas roupas com sinais, na Segunda Guerra Mundial. Se o cara era judeu, “apenas” ganhava uma estrela de certa cor. Se era judeu e carregava alguma mistura de raça, outra cor. Se era homem, outra. Mulher, outra. Se era homossexual, era obrigado a andar com uma estrela indicando isso na veste.

(Aqui, vale o parêntese: são, evidentemente, situações diferentes. Uma, de um povo injustamente massacrado de maneira impiedosa. Um dos mais tristes episódios da história da humanidade. Rotulado sem ter feito nada para isso, apenas para satisfazer a vontade de um louco. O da atleta, uma situação que ela causou. Errou e levou a esse tipo de julgamento. Se “merece” ou não carregar isso para sempre, é outra história.)

É triste. Demais. Como dito, se trata do exemplo extremo, mas é mais ou menos o que está acontecendo com a russa. É como se ela fosse obrigada a andar para cima e para baixo com uma placa escrito “dopada” nas costas. É como se caminhasse por um eterno corredor polonês, sendo apedrejada por todos. É como se tivesse de aceitar porrada de tudo quanto é lado e ter de ficar quieta, porque, afinal, era trapaceou.

Sim, Efimova, muito provavelmente, trapaceou. Se uma ou duas vezes, não se sabe. Se por vontade própria ou induzida, não se sabe. Se protegida por um megaesquema controlado pelo governo do país, não se sabe.

O que se sabe é que nenhuma queda na água, nenhuma eliminatória, nenhuma semifinal, nenhuma final, nenhuma medalha será considerada “limpa”, daqui para a frente. Yulia parece não ter mais esse direito, o direito de chorar de felicidade, porque a culpa e a mancha que carrega serão sempre os primeiros pensamentos que lhe virão à cabeça após a conquista que for.

De uma maneira ou de outra, é triste. Triste demais.

10 Comentários

  1. Engraçado a americana Lilly King. Pq ela não lembra da Flo Joyner, do Justin Gatlin? Aliás uma vez o grande nadador americano Gary Hall Jr. disse abertamente o seguinte sobre o doping chinês dos anos 90: Acusam as chinesas e da Amy Van Dicken (velocista americana dos 50e 100mts) não fala nada. Como disse o coach: Doping só existe na terra do Putin? E outra, a Wada está literalmente dizendo que não pode combater o doping; Quando ela refaz exames de 2008 com novas formas de diagnóstico para punir ela diz que está atrás do doping. Então eu pergunto: hj 2016 ninguém testa positivo e aí em 2024 aparecerão os resultados. Bonito…..

  2. Lamentável a necessidade deste veículo de mídia especializada, tão valorizado no meio da natação, e pelos fãs do esporte, praticar uma inversão de valores tão absurda.

    Como se não bastasse a insistência em transformar os dopados brasileiros em vítimas, agora estão querendo vitimizar uma das maiores trapaceiras do nosso esporte em nível mundial. E o pior! Culpar os brasileiros que vaiam essa “atleta”.

    Concordo com o Pussieldi, quando ele taxa como hipocrisia, vaiar a Russa e ovacionar alguns brasileiros pegos no doping no passado. Mas acho que todos deveriam ser vaiados. Ou, no mínimo, ignorados.

    Vocês ainda não entenderam que a luta contra a trapaça tem que ser pesada. Os atletas tem que ter medo de trapacear. E a unica maneira de isso acontecer é pegar pesado! Aposto que muitos atletas estão pensando duas vezes, neste momento, antes de entrar em um esquema de doping. Ao ver a russa sendo vaiada para o mundo, ninguém quer estar no lugar dela no futuro! A puniçãi moral é pesada.. É cruel.. Mas nesse momento é necessária!

    (P.S.: Não vou comentar o fato da comparação com o holocausto, pois ja foi muito bem debatida e explicada no comentário acima!)

  3. Lamentável esta atitude de desrespeito com atletas. Sempre devemos combater o doping e ser a favor do esporte limpo, mas nunca desrespeitar os atletas, independente de casos passados. E se existir algum dopado sera flagrado nos exames dos jogos.

  4. Nenhum atleta deveria ouvir vaias. Dito isso, de que outra forma podemos vaiar o COI/FINA/CAS? A história é absurda: um atleta é pego com esteroides anabolizantes, cumpre somente 16 meses de suspensão, volta a tempo de ser campeão mundial. Passa um ano, mesmo atleta é pego com uma substância que ninguém sabe exatamente como funciona, mas vinha sendo monitorada (e a atleta deveria saber disso por 1. ser atleta de alto nivel e 2. ter um histórico de ter sido pega no doping e deveria ter sido educada ao extremo sobre as suas obrigações na área como atleta), foi incluída na lista proibida, e corre a informação extraoficial de que confere vantagem atlética sim (mesmo sendo para tratamento de pessoas que tem problema no coração). Essa droga aumenta o calibre das veias e artérias do coração, e aumenta o fluxo sanguíneo. Não precisa ser especialista engravatado do COI/FINA/CAS para saber. Julgada e absolvida a tempo, a mesma pessoa faz em 36h 3 esforços olímpicos culminando com uma medalha de prata. Agora imagina se a King ficasse em segundo lugar? Imagine a americana que se contentou com o bronze? E a chinesa que poderia ter subido no podium? Essa situação é uma coisa horrorosa criada pela legislação falha e branda. Está na hora de mudar.

    Positivo para remédios/diuréticos/coisas que impactem na performance indiretamente = julgamento e suspensão se for o caso.

    Positivo para esteróides = julgamento e banimento do esporte caso o atleta não coopere, ou suspensão pesada caso o atleta coopere com a identificação de técnicos/médico/farmacêuticos/traficantes que disponibilizam essas drogas.

    Suspensão para esteróides é brincadeira. Você muda a sua fisiologia hormonal permitindo ganhos de altura, musculares e motores que jamais iriam ocorrer naturalmente. Cumpre suspensão, fica “limpo”, mas com o treinamento uma parte desses ganhos vai continuar. Qualquer médico mais ou menos vai te dizer isso. Lembrem que no fim serão centésimos que farão a diferença. Infelizmente tem que banir a não ser que o atleta se comprometa em fazer o esporte mais limpo denunciando a cadeia de marketing e disponibilização dessas drogas.

  5. Concordo plenamente com o Rogério acima. Faço a mesma colocação de que os Judeus não fizeram uma escolha para serem singularizados e mortos como culpados. Foram mortos simplesmente por serem Judeus. No caso em pauta, a atleta fez uma escolha para usar do subterfúgio do doping. Ela paga o preço de sua escolha. Isso chama-se responsabilidade individual. Como um criminoso, vai ter que conviver com essa escolha para o resto de sua vida e vai sim ter que se provar novamente como nadadora limpa se quiser continuar no esporte. Essa é a realidade de fazer escolhas e ter que viver com as consequências das mesmas. A chance de se redimir virá com outras escolhas mais acertadas mas a mancha de sua fatídica opção ficará com ela sim. Faz parte de sua história e de suas escolhas.

  6. Infeliz comparação com os judeus !!! Os judeus nada fizeram para receber uma designação, ao contrário da nadadora que decidiu por livre e espontânea vontade !!!

    • Rogério, tudo bem?
      Eu sabia que ia dar polêmica quando fiz a comparação. Tentei ser cauteloso, mas vi que não funcionou.
      Que fique claro: é evidente que eu sei a diferença aqui. Claro que sei, não sou maluco.
      A única coisa que quis dizer foi no aspecto de se rotular. Como é ser classificado por uma escolha.
      Claro que a dos judeus é outra. Não fizeram absolutamente nada de errado para isso, sofreram demais, demais, em um dos episódios mais tristes da história da humanidade.
      A Efimova, não. Ela errou. Cometeu um deslize. Não sei se “merece” ser tachada assim, mas deu motivo para isso.
      Enfim, não sou judeu, mas sempre entendi, muito bem, o que aconteceu na Europa na Segunda Guerra.
      De qualquer maneira, se vc se sentiu ofendida, assim como qualquer outra pessoa, fica o meu pedido de desculpas.
      Só reitero: a intenção não era essa. Nunca foi. Apenas contextualizei ali.

      Abraços

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