O melhor Michael Phelps

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FABIOLA MOLINA

 

Michael Phelps e o filho, Boomer: vida do fenômeno mudou de vez
Michael Phelps e o filho, Boomer: vida do fenômeno mudou de vez (Foto: Instagram/Reprodução)

O Michael Phelps que se vê no Rio de Janeiro é o melhor Michael Phelps da história. Olhe com calma, preste atenção em cada detalhe. Nunca o americano se apresentou como agora.

Esqueça-se do garoto de 15 anos, orelhudo e com espinhas no rosto, que já dava pinta de que seria diferente, quando ficou em quinto na final dos 200m borboleta em Sydney-2000.

Tire da mente o cara de 19 que, quatro anos mais tarde, saiu de Atenas-2004 com oito medalhas penduradas no pescoço, mas teve dificuldade de lidar com o fato de que as pessoas resolveram falar mais e criticar porque, dessas oito, duas eram de bronze,  o que significava que ele havia fracassado na missão de subir ao lugar mais alto do pódio em 100% das vezes em que caiu na água.

Acredite, este Phelps de 2016 é melhor do que o de oito anos atrás, sim, que foi a Pequim e não deu margens para avaliações tortas da performance dele, porque ganhou as oito provas que nadou, deixou para trás a lenda e o “fantasma” de Mark Spitz, fez o que sempre esperavam que ele fizesse e, a partir dali, ocupou um lugar no Olimpo olímpico (redundante, né?) do qual jamais sairia ou poderia ser tirado, porque mereceu estar ali.

Quatro anos depois, porém, o americano chegou a Londres de maneira mais humilde, quieto, e de lá saiu como o maior atleta da história dos Jogos, ao totalizar 22 medalhas olímpicas, 18 de ouro. Já dava para dizer, sem muito medo de errar, que nunca mais alguém vai alcançar essas marcas, não nesta vida, pelo menos, não enquanto a maneira de se encarar o mundo e contar histórias seja como é hoje.

Este Michael Phelps de hoje, com 31 anos, é melhor do que todos esses. Talvez não esportivamente (talvez, porque pode ser que seja), mas no conjunto da obra.

Pela primeira vez, Michael é um homem feliz. Dá para apostar que, se voltasse para os Estados Unidos sem nenhuma medalha conquistada no Estádio Aquático carioca, e tudo estaria bem. Vida que segue, paciência, o melhor foi feito, os caras estavam mais bem preparados, na vida se perde e se ganha.

Não aconteceu, porque o ouro no 4 x 100m livre, pelo menos, ele já conquistou, e sendo protagonista com os 47s12 anotados na parcial, que só não foram melhores do que os assustadores 46s97 de Nathan Adrian. E Phelps vai ganhar mais cinco medalhas (anote aí), porque não deixará de subir ao pódio nos 100m e 200m borboleta, nos 200m e 4 x 100m medley e no 4 x 200m livre.

Vai voltar para casa com 28 medalhas olímpicas conquistadas na carreira. Vinte e oito. O Brasil, na história, tinha 23 de ouro até o começo do Rio-2016. O que o americano conseguiu na vida é assustadoramente assustador.

Mas, mesmo que a aventura no Rio fosse um fracasso, Michael voltaria para casa com a sensação de missão cumprida. Porque, hoje, Michael não tem mais tantos fantasmas para exorcizar.

Phelps contou, em entrevista recente à ESPN americana, que pensou em se matar. É difícil de acreditar, mas verdade. Naquele momento pós-Londres-2012, depois de conquistar tudo o que podia conquistar, se viu perdido na vida sem sentido. Foi preso por dirigir alcoolizado, teve de se internar numa clínica de tratamento, passou mais tempo do que devia em cassinos, festas e gastando dinheiro com mulheres.

Mas acordou a tempo. Na passagem em que revelou ter tentado se matar, Phelps diz que ficou cinco dias trancado no quarto. Não comeu nem dormiu. E se sentiu um derrotado, porque achou que estava fazendo as pessoas sofrerem por causa dele. Estava, de fato.

Veja bem. Michael Phelps se sentiu um derrotado. Isso é possível? Um cara milionário, mundialmente famoso, que podia ter o que quisesse e, nas palavras dele, não tinha mais o que conquistar no esporte? Sim. E foi só por causa disso que as coisas entraram no eixo.

Phelps errou, e pagou pelos erros. Decidiu dar a volta por cima. Livrou-se do vício, decidiu pedir a namorada, Nicole, em casamento. Voltou a treinar, a cuidar dele mesmo. Hoje, é pai de um garoto, Boomer, e tudo muda na vida do sujeito quando ele vira pai.

Mais importante, resolveu pôr fim ao problema com o próprio pai, Fred, que abandonou a mãe, Debbie, quando Michael era criança. Tinha 4 ou 5 anos, não me lembro, e isso foi o estopim para uma infância complicada, com isolamentos, muito bullying, uma doença de déficit de atenção e a previsão furada de uma professora do ensino fundamental que disse que ele nunca seria absolutamente ninguém na vida.

Phelps ficou quase 20 anos sem falar com o pai, até o dia em que o convidou para uma festa de família, em Baltimore, onde vivem. As coisas entraram no eixo, e pode ser que os dois não sejam nunca mais os melhores amigos do mundo, mas trocaram ali apertos de mão, abraços e palavras de “eu te amo”, e quando você faz isso, tira das costas um peso enorme.

Phelps, hoje, está em paz. Continua não sendo perfeito, errou e errará, mas tem a tranquilidade para chegar em casa, beijar a futura esposa, pegar o filho no colo, sentar numa cadeira, falar para ele que fez o que podia fazer na piscina, e que esse máximo havia sido suficiente ou não para ganhar uma medalha. Quando entender as coisas, Boomer ficará extremamente orgulhoso do pai, não tem como ser diferente, qualquer um ficaria.

É óbvio que, para um cara como ele, “fazer o melhor que pôde” se reflete no sucesso nas provas que nadou ou nadará. Mas Michael Fred Phelps II está feliz. De alma lavada, pronto para fazer o trabalho que tiver de fazer e se aposentar, depois disso, deixando o legado que sempre quis. Não se pede que as besteiras sejam esquecidas ou apagadas do passado, até porque nunca seriam, mas o sorriso e o choro finais serão, sempre, mais importantes do que tudo.

E é uma história sensacional, essa, que terminará da maneira que tem de terminar.

 

3 Comentários

  1. Sim, este é o melhor MP. Um detalhe que me emocionou neste rev: após o abraço, a comemoração com os colegas de time, via- se o mito MP olhando, vasculhando, procurando na multidão sua família. “A tranquilidade no olhar” de quem achou seu porto seguro.

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