Editorial: Não vaie a Rússia, a China, Efimova, Sun Yang, não vaie…

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FABIOLA MOLINA

Não vaiem, por favor não vaiem mesmo.

Isso é Olimpíada, talvez no futebol isso tenha espaço, nos outros esportes não, na natação, muito menos. Está na hora de saber da história a fundo para expressar de forma adequada a sua revolta.

Este que vos escreve é um ex-treinador de natação, hoje trabalhando na mídia e proferindo cursos, clínicas ao redor do país e pelo mundo. Estive natação a minha vida toda, fui atleta do Grêmio Náutico União, fui treinador, trabalhei em três diferentes estados no país, treinador nos Estados Unidos e técnico de seis seleções nacionais diferentes. Esta é minha quarta Olimpíada.

Por mais que eu fosse, em toda minha carreira, e sigo sendo, totalmente contrário ao doping no esporte, tive a infelicidade de ter cinco nadadores testados positivos.

Por diferentes razões, em diferentes situações, são atletas que cometeram enganos ou procuraram de forma ilícita uma melhora que não estavam conseguindo nos treinamentos. Foram suspensos, receberam a punição que lhes devia. Alguns voltaram a nadar, outros deixaram o esporte. Não cabe a mim punir-los. A WADA, a FINA ou quem quer que seja já faz isso. Não vou defendê-los, mas não é minha responsabilidade eliminar estas pessoas do esporte ou até mesmo de minha convivência.

O fato destes atletas terem passado por mim (nenhum testou positivo durante o período que treinavam comigo), não me faz um treinador “trapaceiro” que mereça ser eliminado do processo. Eu, como muitos outros, e talvez até algum destes atletas, somos “vítimas” deste mal do doping. Errou, pagou, acabou. Assim que deve ser e se começa de novo.

Um dos melhores jornalistas da natação mundial, senão o melhor, o britânico Craig Lord faz uma verdadeira cruzada em nome do esporte limpo. Escreve no jornal “The Times” e diariamente no site Swimvortex. Há alguns anos, Lord decidiu colocar asteriscos ao lado do nome dos atletas que já testaram positivo. Para mim uma forma de desmerecer qualquer reconhecimento ou conquista destes atletas, Lord criou o seu próprio sistema de punição.

O que escrevo aqui já disse até para ele. Discordo por completo da medida pois existem regras e leis específicas para o controle e punição do uso de substâncias proibidas. Os atletas culpados são punidos e não há motivos para seguirem sendo discriminados ou sofrendo qualquer consequência. É como se alguém cometesse um crime, passasse 20 anos na prisão e na saída recebesse um crachá identificando, onde quer que fosse, que tipo crime havia cometido.

Fora isso, existem exames positivos e doping. Os positivos podem não necessariamente serem com a intenção da melhora de performance. Um remédio errado, uma dosagem a mais, enganos que podem o atleta ser punido. Para Craig Lord, se o atleta for absolvido ou não, se foi acidente ou não, ele recebe o asterisco.

Toda esta introdução é necessária para se falar da Rússia. Vaiar a Rússia, para mim, é no mínimo hipocrisia. Nossos casos de doping são tão expressivos quanto. Desde que o Rio de Janeiro foi escolhido para ser sede dos Jogos Rio 2016 em 2009, o Brasil teve 22 casos positivos somente nos esportes aquáticos. Em sete anos, uma média de três casos por ano. Porque vaiar os russos e aplaudir tanto os nossos nadadores?

É verdade que a Rússia está sendo acusada, e com dados suficientes para comprovar a veracidade das acusações, de um doping sistêmico, oficial, patrocinado pelo Governo. Diferente dos nossos atletas que tem sido pegos em constantes uso de substâncias proibidas, muitas vezes indicando contaminação cruzada.

Aliás, de todos os casos da história da natação brasileira, até hoje, tivemos apenas três nadadores que confessaram a utilização de substâncias proibidas em busca de performance. Todos os demais sempre alegaram a tal contaminação cruzada ou indicaram não saber como a substância entrou em seus corpos.

Se a intenção ao vaiarmos a Rússia seria protestar pelo doping sistêmico, muitos, mas muitos mesmo dos atletas que ali estão podem ser inocentes ou vítimas deste processo. A maior punição e os maiores protestos tinham de ser para quem é responsável por tudo isso, no caso os dirigentes.

Não se influencie pelo verdadeiro lobby da imprensa internacional contra o “doping selecionado” de russos e chineses. O doping está em todo lugar, inclusive aqui, como acima relatei. O doping está nos Estados Unidos, o país maior consumidor de drogas proibidas do mundo, sejam elas de performance ou as chamadas recreativas. O sistema de controle e punição de doping das ligas profissionais americanas são patéticas. Testar positivo num jogo da NFL, a liga de futebol americano, pode dar ao atleta a “impressionante” punição de até seis jogos.

Não tem como assistir os feitos de Katie Ledecky e Michael Phelps serem agraciados como fenômenos espetaculares e questionar a validade dos resutados de Katinka Hosszu, como a mídia americana insiste em fazer. Não existe ninguém mais testado em nosso esporte do que a Dama de Ferro. Nem por isso a mídia americana diminui o seu constante ataque e que voltou a ser visto nestes últimos dias, especialmente após o fantástico recorde mundial nos 400 medley.

A imprensa britânica faz o mesmo, talvez até pior. O lobby feito contra os russos foi tão grande que até publicar notícia falsa o jornal “The Sunday Mail” fez. Um dia antes do Comitê Olímpico Internacional anunciar que não iria banir o Comitê Olímpico da Rússia de participação no Rio 2016, na capa do jornal, a manchete era anunciando a proibição de participação na Olimpíada. Enquanto se aguarda uma retratação que nunca existiu, o que seguiu foi uma linha editorial de protesto pela decisão tomada pelo COI. Ou seja, já que tomaram uma decisão contrária a nossa notícia, crítica neles.

Vivemos um mundo do chamado “jornalismo torcida”. Onde fatos são distorcidos e produzidos de acordo com a linha editorial que interessa ou que promova a matéria intencionalmente produzida.

A WADA tem feito um enorme esforço no controle anti-dopagem. É uma guerra que está longe de ser encerrada, mas que teve grandes avanços nos últimos anos. O relatório McLaren, reproduziu uma série de irregularidades cometidas pelo Comitê Olímpico Russo no desaparecimento de amostras, adulteração de resultados. A função do mesmo é indicar estas irregularidades apontando nomes e identificando provas.

Quem tem de punir, quem determina o que vai acontecer é o Comitê Olímpico Internacional e as Federações Internacionais do esporte. O único erro do relatório McLaren foi determinar o que deveria ser feito nos resultados encontrados. Até porque, mesmo sendo um doping sistêmico, existem atletas que são totalmente limpos no processo e outros que são vítimas disso tudo. Assim, não há outra forma de corrigir isso analisando de forma isolada. Decisão acertadíssima do COI.

O “jornalismo torcida” e lobby foi tão grande que chegaram a reclamar para a presença da corredora Yulia Stepanova na Olimpíada. Uma especialista de 800 metros rasos que foi parte deste sistema de doping sistêmico, testou positivo, pegou dois anos e decidiu abrir a boca. Junto com o marido Vitaliy Stepanov, que era funcionário da RUSADA e participou durante anos deste processo ilegal de dopagem dos atletas russos.

Os dois, fugiram da Rússia, e foram as estrelas do documentário da TV alemã ARD que revelou os detalhes que deflagraram toda esta crise internacional. Os Stepanovs prestaram um serviço ao esporte mundial, e mesmo tendo sido bem recompensados pela TV alemã (valores nunca revelados), não podem ser agraciados por conta disso. Afinal, os dois estavam dentro deste processo.

O lobby da imprensa internacional pedia uma oportunidade para Yulia Stepanova pode competir na Olimpíada do Rio, mesmo sem estar afiliada a nenhuma nação. Para mim, é algo como Eduardo Cunha decidir fazer uma delação premiada, colocar um bocado de deputados federais atrás da grade e lhe agraciarmos devolvendo a Presidência da Câmara.

O COI acertou de novo. Obrigado Yulia, temos ingressos e hotel disponível para você vir ao Rio, assistir da arquibancada. E ponto final!

Depois do COI decidir que não iria banir o Comitê Olímpico Russo, ficou sob responsabilidade da FINA avaliar a equipe da Rússia para o Rio 2016. A primeira medida foi banir sete nadadores, quatro deles que já haviam testado positivo e cumprido suas respectivas penas. Tal medida, foi considerada pelo Tribunal da Corte Suprema CAS/TAS como ilegal. É uma dupla punição para alguém que já cumpriu pelo que fez de errado. Certíssimo!

Restavam agora, os três casos de atletas que têm seus nomes relacionados no relatório McLaren. Como os dados do relatório não foram divulgados por completo, não se sabe que tipo de infrações ou irregularidades poderiam estar relacionadas a estes casos.

Pode ser atletas que testaram positivo e não foram punidos, testes que desapareceram sem indicação se foram positivos ou não, ou mesmo irregularidades de controle e análises. Pela falta de dados mais precisos não há como aqui se fazer uma avaliação final sobre estes casos.

Entretanto, o CAS/TAS que é formado por juristas internacionais fez análise de tudo isso, teve acesso ao que o relatório McLaren apurou e, dentro da lei, tomou a medida. Ao liberar os atletas, coube novamente ao COI decidir pela liberação de participação dos atletas. Todos, na véspera do início desta Olimpíada, foram reintegrados a delegação Russa.

São sete, seis de piscina, mais uma nas águas abertas. Atletas que foram investigados, analisados, julgados e liberados. A lei foi cumprida e, por ser contrária a linha editorial internacional, não podemos ser influenciados por conta disso.

Ao vaiarmos estes atletas, estamos corroborando com este processo seletivo de marcar atletas como trapaceiros sem distinguir as distintas condições de doping e principalmente desrespeitar as decisões da justiça esportiva mundial.

A mesma coisa serve para os chineses. Sun Yang é um fenômeno das piscinas, um nadador espetacular, que treina como pouco e, talvez, um dos maiores fundistas da história da natação mundial. Testou positivo para uma medicação para doença coronária, foi suspenso, e da forma como é tratado é o mais sujo atleta da história.

Sun Yang já foi testado dezenas de vezes. Quem sabe muito próximo de uma centena. Metade disso por agências internacionais e nada foi encontrado em seu corpo. Fazer o que a mídia australiana faz com ele é desumano. Sun Yang foi batido nos 400 metros nado livre por Mack Horton que ganhou na piscina e não precisava chamá-lo de “drug cheat”, ou seja “um dopado” ou um “trapaceiro”, tradução mais chula.

Horton foi claro e disse que não tinha respeito por Sun Yang. No mesmo dia de suas declarações infelizes, e desnecessárias, foi invadido em suas redes sociais por ataques dos fãs chineses. A mídia australiana ainda teve a cara de pau de tratá-lo como vítima disso. Não sou a favor dos ataques, mas vai ser difícil controlar uma população de 1,357 bilhões de pessoas que tenham se sentido ofendida pelas declarações de Horton.

Sim Horton, Sun Yang não é um “drugh cheat”, ele é um nadador igual a você que testou positivo, foi julgado, suspenso, punido. Acabou. Quem determina se o atleta é limpo ou não são os órgãos compententes, não sou eu, nem vocês, nem a imprensa australiana, muito menos Mack Horton, que vai decidir.

A chinesa Shiwen Ye foi covardemente atacada na entrevista coletiva ao final do seu ouro e recorde mundial dos 400 medley nos Jogos de Londres em 2012. A chinesa, então com apenas 16 anos, respondia a tudo e a todos, logo após o título olímpico e aquele final de prova impressionante de 58.96 nos últimos 100 metros.

Os jornalistas foram impiedosos. Sarcásticos e agressivos. O respeito era a única coisa que não existia naquela lotada sala de imprensa em Londres. A coisa foi tão feia, tão feia, que se seguiu por vários dias. Ao final dos 200 medley, onde Shiwen Ye venceu novamente, a americana Caitlin Leverenz, medalha de bronze na prova, teve de interromper uma jornalista.

Leverenz se revoltou com a falta de respeito e disse que estava diante de uma campeã olímpica e as perguntas estavam sendo totalmente inapropriadas para o momento.

Shiwen Ye foi campeã olímpica e recordista mundial até o primeiro dia desta Olimpíada. Fora de forma, longe do seu melhor, ficou em 27o lugar não passando das eliminatórias. Seu recorde, finalmente, foi quebrado, ou melhor, dizimado por Katinka Hosszu. Desde o título olímpico, Shiwen Ye esteve em dois Campeonatos Mundiais, mais Pan Pacífico, Jogos da Ásia, e inúmeras outras competições internacionais.

Foi testada dezenas de vezes, por agências internacionais, todos os exames deram negativo. Não podemos aceitar que a mídia faça de uma atleta limpa uma “drug cheat” e achar que isso está certo.

Não está. Quem pune atletas dopados é a lei. Quem suspende são as entidades competentes. O jornalismo tem outra conotação. E até mesmo que ele seja investigativo, quem vai determinar a punição ou não serão as respectivas organizações.

Portanto, nestes Jogos Olímpicos, não seja influenciado por este desvio de informação selecionada, que coloca alguns ídolos no Olimpo mandando outros grandes nomes para a sarjeta.

Vaiar é concordar com esta deturpação da realidade, beneficiando interesses específicos. Repito sou contra o doping, é um mal, senão o maior do esporte mundial. Mas não posso ser a favor da hipocrisia e aceitar este desvio discriminatório da imprensa internacional.

Não a vaia!

6 Comentários

  1. Ótimo texto! Mas atletas que foram punidos esse ano pela FINA por reincidência no doping estão na olimpíada, como q Efimova. Onde está a autorizade da FINA nessa história?

  2. Bonito texto, mas eu continuarei vaiando, estrangeiros ou brasileiros.
    Anos de preparação, abdicação e muitas dificuldades para trapaceiros destruírem o seu sonho. Mesmo sabendo que a punição é eterna (pelo julgamento do povo), imagina se ninguém ligasse, a quantidade de trapaceiros seria ainda maior.

  3. Concordo. Nao podemos faltar com respeito aos atletas , pois o doping está no.mundo tudo, e sempre existirá atletas limpos e honestos envolvidos em acusações.

  4. Excelente análise, Coach!!! No caso de Yulia Efimova e Vladimir Morozov, quem acompanha as grandes competições internacionais de natação, sabe que os dois são nadadores excepcionais, com uma técnica primorosa. Não precisariam de doping para triunfar. Sun Yang, idem!!!

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