Papo de Olímpico: O sono olímpico

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FABIOLA MOLINA

A maior mudança da natação nos Jogos Olímpicos do Rio será o horário das eliminatórias e finais. Pela primeira vez na história teremos horários bem incomuns, sendo as eliminatórias acontecendo das 13:00h às 16:05h e as finais das 22h às 00:05h. Muitos atletas e dirigentes já demonstraram sua insatisfação com relação a decisão do COI em aceitar o pedido da NBC, que tem os direitos de imagem e transmissão dos jogos, que solicitou esses horários para que a natação fosse transmitida ao vivo nos Estados Unidos em horário nobre. Mas será que a mudança de horários afetará tanto assim a performance dos nadadores na hora da competição?

Até pouco tempo eu pensava que isso não iria afetaria muito o desempenho do atleta, porém após um período em Uberlândia acompanhando a seleção da Sérvia em sua preparação olímpica, tive a oportunidade de treinar nos horários olímpicos. Os primeiros treinos foram difíceis principalmente na parte nutricional. O corpo não está preparado para almoçar as 15:00h e jantar às 00:30h. Doutor em biologia do exercício muscular, Iñigo Mujika, afirma que a “performance do atleta nos horários acima das 22 horas diminui o rendimento e atrapalha a qualidade do espetáculo”. Isso acontece, segundo Mujika, principalmente por causa das alterações nutricionais e do ciclo de sono que consequentemente atrapalha na recuperação muscular do atleta. Outra dificuldade foi tentar dormir depois do jantar, seu corpo está cansado, já são 01:00h da madrugada, porém nada do sono vir. Outro lado que senti dificuldade foi o descanso na parte da tarde. Esperar o segundo treino vendo o sol se por, o Jornal Nacional começando e nada de sair para ir treinar já me deixava um pouco fadigado e com sono. O sistema biológico não está preparado para isso. As 21:00h meu corpo já sentia a necessidade de jantar, enquanto era hora de fazer a alimentação pré-treino.

A maioria das seleções já estão se adaptando a esse horário “noturno”. A equipe inglesa já mudou os horários de treino desde o campeonato Europeu em junho, assim com a Espanha e a Suécia. A Austrália já treina assim em Auburn e a seleção Americana começou desde que chegou em Santo Antônio após sua seletiva olímpica.

Já a seleção brasileira optou por começar essa adaptação há menos de 20 dias antes do inicio das competições. De acordo com o conceituado médico da seleção brasileira de natação, Dr. Gustavo Magliocca, o melhor período para iniciar a adaptação dos horários será durante o polimento (fase final de treinos). A seleção irá contar com algumas tecnologias para acelerar esse processo como o uso de óculos com onda de luz. Ele relata que tem a “plena convicção que a seleção terminará da melhor forma possível o ciclo de treinamento”.

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O técnico da Sérvia, Chris Tidey, que optou por treinar nesses horários desde o começo de julho quando chegou ao Brasil confessa que esperava ter uma adaptação mais rápida, porém percebeu somente após duas semanas a uma excelente performance dos seus atletas nos treinos. A maior dificuldade, além do fuso, foi o corpo se readaptar fisiologicamente a tudo, café da manhã as 10h, almoço as 15h, lanche as 18h e as 20h e jantar as 00:30h. Definitivamente não é um ritmo que atletas estão acostumados.

Tenho certeza de que durante os jogos vamos ouvir atletas, técnicos e dirigente reclamando que foram dormir as 04:00h da madrugada após cerimonia de medalha, soltura, massagem, coletiva de imprensa, jantar. Com toda razão, acredito que os horários incomuns afetará a performance de muitos e adaptação terá um papel fundamental no resultado final. Porém acredito que a mudança não afetará a emoção, o brilho, e a alegria que a natação proporciona aos Jogos Olímpicos.

Henrique Barbosa, nadador olímpico 2008, 2012
Comentarista da Rede Bandeirantes de Televisão nos Jogos Rio 2016

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