Na Raia: 23

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FABIOLA MOLINA

Por Plínio Rocha
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Uma medalha. O cara escolhe ser nadador, começa a competir e, um dia, para na frente da televisão. Assiste aos Jogos Pan-Americanos e diz para si mesmo, baixinho para que ninguém ache que ele está querendo demais, que gostaria de ganhar uma medalha naquele torneio. Nem faz distinção de cor, pode ser bronze, pode ser prata. Se for ouro, terá sido o presente máximo que aquele candidato a herói podia sonhar.

E o tempo vai passando. Pintam as competições menores, outras com mais gente, mais algumas fora do país. O nível dos adversários vai aumentando e a luta contra o cronometro se transforma em uma guerra que parece não ter fim. E, lá no fundo da cabeça, aquela frase continua ecoando: “Uma medalha. Só uma”.

De repente, você é convocado para a seleção brasileira e se vê em cima de uma baliza, pronto para a largada mais importante da sua carreira, que pode ser curta e precoce ou pode estar no fim. Mas não interessa. Ali, naquele momento, o cara só depende dele. É uma das coisas que vêm acompanhadas no pacote da natação, porque é evidente que existe uma equipe gigantesca por trás de muita gente que chega a um Pan, mas, depois que soa aquele tiro, é você que te leva onde você pode – e quer – chegar.

Ganhar ou perder, na natação, estão separados por milésimos de segundo. É um dos poucos esportes no qual a quarta colocação é a pior recompensa que se pode ter. Sim, porque a terceira, que significa o bronze, que significa o pódio, escapou. E você olhou para o lado e viu três caras comemorando, caras que, eventualmente, atingiram ali um objetivo. Uns mais, outros menos, mas, bem ou mal, três vencedores.

No fim da sua prova, a coisa é a mais objetiva possível. Se o cara bateu entre os três primeiros, triunfou. Se não bateu, pode até ter conseguido um resultado a ser comemorado, mas se era a medalha que queria, ela não virá. A menos que aconteça alguma coisa excepcional, mas ninguém gosta de pendurar nada no pescoço que não tenha merecido.

O cara escolhe ser nadador, sonha com uma medalha em Jogos Pan-Americanos, e Thiago Pereira conquistou 23. Vinte e três. Banhado por ouros, pratas e bronzes, conseguiu o que ninguém conseguiu. Na história. Nunca o apelido de Mr. Pan fez tanto sentido. O brasileiro é o único a somar tantos pódios nessa competição.

Um apelido, aliás, que já foi tratado com desdém por muita gente. Ninguém é louco de querer comparar a importância de um Pan-Americano com uma Olimpíada ou um Mundial de piscina longa. Louco, na verdade, é quem acha que ganhar medalha em Pan-Americano “não vale nada”. Se americanos e canadenses não dão a devida importância ao torneio, o Brasil dá. Cada um sabe qual a sua prioridade, só não vale querer diminuir a escolha dos outros.

Thiago Pereira, hoje, é medalhista olímpico, mundial e recordista em Pans. Mas já foi aquele garoto que parou na frente da televisão, viu os caras indo ao pódio, os hinos sendo tocados, fechou o olho, suspirou com força e disse para ele mesmo: “Uma medalha. Só uma”.

Hoje, quando fecha os olhos e conversa com ele mesmo, ele mais ouve do que fala. Tenta contar quantas vezes ouviu o Hino Nacional ser acionado por causa dele. No lugar mais alto do pódio, ele respira fundo, mantém os olhos fechados e pensa: “23”.

Depois, volta para casa, deita e dorme. Pronto para novos sonhos, porque um deles, pelo menos, ele sabe que virou realidade.

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Plínio Rocha é editor do Diário de S.Paulo e escreve a coluna Na Raia no Best Swimming desde 2007

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