Na Raia: O esporte individual mais coletivo do mundo

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FABIOLA MOLINA

Por Plínio Rocha
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O assunto surgiu no papo com a amiga Leticia Todesco, ex-nadadora, futura jornalista. Por que Cesar Cielo consegue bons resultados mesmo treinando sozinho? Por que o nadador fica bem mesmo quando abre mão de trabalhar dia a dia em um clube grande, como já fez com Pinheiros, Flamengo e, agora, Minas?

E, aí, você tem uma infinidade de argumentos para debater… Porque, afinal, cada um é cada um, e cada um reage a isso de uma maneira diferente. Há quem se sinta bem cercado de gente nas raias. Há quem se sinta absolutamente confortável na solidão. Há quem saiba separar o trigo do joio, porque, enfim, treino é treino e jogo é jogo, para adaptar um jargão do futebol.

E isso, explica, muito bem, o rumo que muita gente leva na vida.

Cielo, se você parar para analisar, nunca está sozinho. E esqueça-se dos técnicos. Quando deixou o Pinheiros, o nadador tentou emplacar o P.R.O. 16, mas, infelizmente, a coisa não vingou. Principalmente, porque o Brasil olímpico não comprou, literalmente, a necessidade de investimento para a Olimpíada do Rio. (Mas o país está em crise e a discussão aqui é outra…)

Tivesse a ideia dele dado certo, e hoje estaria em uma equipe com Thiago Pereira, Guilherme Guido, Henrique Rodrigues, Leonardo de Deus, Nicholas dos Santos, Tales Cerdeira, Alberto Silva…

Bem ou mal, Cielo sempre tenta se cercar de gente conhecida – e boa -, mesmo quando não está dividindo raias com companheiros de equipe. Um exemplo disso mostra que, atualmente, está treinando nos Estados Unidos, mas lá estão com ele Guilherme Guido e Matheus Santana, por exemplo, com Ari Silva e Márcio Latuf na beira da piscina.

Num movimento inverso, Mariana Brochado preferiu morrer abraçada com o Flamengo. A teoria, inclusive, já foi tema de coluna aqui no Best Swimming. A menina nunca abriu mão de deixar o clube carioca, muito em virtude da vida que conseguia levar por treinar onde treinava. Isso se tornou tão essencial para ela que, num determinado momento, preferiu buscar a ajuda de um patrocinador pessoal para resolver os problemas de aquecimento da piscina do clube para não ter de sair dali.

Mas o que aconteceu? Mariana, mesmo que inconscientemente, acabou estacionando ali. Quem pode dizer como teria sido se ela tivesse aceitado uma das muitas propostas que teve de clubes grandes do país, como Pinheiros e Minas, e tivesse decidido treinar neles? Com companheiras de equipe, gente que a motivasse, gente que lhe faria companhia, gente que dividiria com ela eventuais dificuldades do cotidiano, que, antes, ela sempre tinha de lidar sozinha?

Palpite? Mariana teria estendido a carreira, porque o talento dela lhe dava condições e gás para ir além dos 24 anos na piscina.

Não foi isso, também, aliás, que encurtou a carreira de Ian Thorpe? Problemas com o álcool e a depressão à parte, o australiano disse, em entrevista, que, em um determinado momento, a solidão do dia a dia da piscina bateu mais forte. Teve um tipo de fobia, e tudo aquilo que sempre lhe representou vida e felicidade passou a significar angústia, medo, incerteza e desolação.

Acredite: a natação é o esporte individual mais coletivo do mundo. Até há quem diga que, mesmo quando se está num revezamento, é das suas forças que você depende. Pelo menos naqueles 50m, 100m ou 200m, você está por conta própria.

Mas todo mundo depende de alguém quando levanta da cama e cai na piscina para treinar. Num determinado momento, vai depender. Porque um dia a coisa não vai fluir, um dia a coisa vai doer, um dia a coisa vai ser desagradável e, um dia, você vai pensar em desistir. E é aí que a coletividade entra em jogo.

Muita gente pode ser autossuficiente e ter um equilíbrio mental excepcional, mas não existe, ainda, imunidade para aquele momento em que, no fundo, o que você mais precisa é de uma palavra de suporte, um gesto de amizade, uma demonstração de conforto. Olhar para a raia ao lado e ver que é preciso bater a perna mais com mais força ou girar o braço com mais velocidade, porque você está ficando para trás. E, nesse momento, o desespero da solidão ataca sem piedade. Vai na minha: ninguém ganha nada sozinho.

Plínio Rocha é editor do Diário de S.Paulo e escreve a coluna Na Raia no Best Swimming desde 2007

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