Na Raia: Dois pesos, duas medidas, um erro

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FABIOLA MOLINA

Por Plínio Rocha
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João Gomes Jr. nunca terá o mesmo tratamento que Cesar Cielo nos assuntos relacionados à natação. Nunca. Pode até ser errado, mas é assim que é. Cielo vai sempre ter mais atenção, cuidado, tolerância, sempre vai ser mais requisitado, disputado, observado. E isso é normal, diga-se de passagem. A gente é o que a gente constroi, e isso explica tudo.

Mas, se existe alguém que pode tentar equilibrar essa diferença, essa é a CBDA. Porque a confederação tem uma missão, que é lutar pelos interesses dos esportes aquáticos do país. E, claro, até aqui vai haver uma tendência a puxar a sardinha para Cielo, por tudo o que ele legitimamente representa. O que não pode, porém, é escantear outras pessoas.

E aconteceu isso com João Gomes Jr. nesse episódio do doping.

Desde as primeiras manifestações, esteve sempre claro que a CBDA queria, a qualquer custo, a manutenção das medalhas no Mundial de curta de Doha, do qual o país saiu com um inédito e expressivo título geral. O que o Brasil conseguiu foi histórico e memorável. Não, não se equipara às melhores competições de longa, mas é muita coisa, sim, ser campeão mundial na piscina de 25 metros.

Por isso, havia um desespero instalado de que a Wada e a Fina punissem o país e tirassem dele a conquista. O que seria justo, até, se pensar que João esteve em revezamentos que renderam medalhas e, consequentemente, a posição final na tabela de classificação.

Aqui, há quem defenda que aconteceu a coisa certa. João errou e deveria ser punido, não um time inteiro que talvez não soubesse que o sujeito estava trapaceando. Por outro lado, há quem diga que tudo só aconteceu como aconteceu porque houve o doping, o que, claro, é um exagero, um absurdo. O Brasil teria se classificado para as finais da mesma maneira, mas, oras, se é considerado uma trapaça, então que assim seja. E, por isso, torna a participação ilegal.

Mas a Wada e a Fina decidiram que era caso de punição dele, seis meses de gancho, medalhas mantidas. Não cabe aqui, pois, dizer se foi a decisão certa ou não.

O fato é que a CBDA saiu vitoriosa no assunto. O Brasil continua sendo campeão mundial em piscina curta, em 2014. O que é para se comemorar, claro, mas será que, para isso, era preciso dar as costas para João?

A confederação vai argumentar que bancou toda a defesa do atleta. Pode ser verdade. Acontece que, neste caso, a defesa do atleta era a própria defesa dela.

João tem sido atingido de todos os lados. Soltou um comunicado questionando a manipulação dos suplementos. E, claro, isso pode até ser irresponsável, porque mexe com uma coisa muito importante em qualquer mercado de trabalho, que é a credibilidade. E foi repreendido por isso, o contra-ataque disse que nada disso acontece, porque as normas seguidas são, sim, de extrema rigidez.

Mas, apenas para não deixar passar batido, alguém aí se lembra de resposta no mesmo tom quando Cielo fez esse tipo de colocação, falando em manipulação por parte do laboratório que produzia a suplementação que ele consumia?

Naquele caso, outros três nadadores tiveram o mesmo problema, o que reforça, e muito, a possibilidade de a versão do campeão olímpico ser verdadeira. Mas, em suma, alguém saiu em defesa de João, por ter dito o que disse, como no caso de Cesar?

Não, isto não é uma carta de absolvição a João Gomes Jr. Não, esta coluna não acredita na inocência dele. Até que se prove o contrário, é culpado, sim, e deve pagar, sim. Não, isto não absolve ninguém que se utilize de métodos ilegais para tirar vantagem no esporte, porque é aí que a essência da coisa se perde, se é preciso trapacear para ser o melhor, que fique em casa, e aí estão casos famosos de Lance Armstrong, de muitos velocistas do atletismo, muitos nadadores, até de Anderson Silva para mostrar como a coisa pode se transformar em algo vexatório, aquela mancha que não importa o que você faça, mas ela nunca vai sair de lá.

A única coisa que se pede, na verdade, é a igualdade de tratamento para todo mundo. Cesar Cielo, claro, com razão, nem deve gostar de ver o nome dele inserido nesse tipo de contexto, não tem absolutamente nada a ver com isso. Nem ninguém que tenha se envolvido com um caso de doping. Nem mesmo João Gomes. Mas não faria mal a ninguém ter o mesmo apetite na hora de defender o cidadão. Afinal de contas, errar é humano. Dizem.

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Plínio Rocha é editor do Diário de S.Paulo e escreve a coluna Na Raia no Best Swimming desde 2007

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