Papo de Olímpico: Onde estão os trajes?

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Revezamento 4x100 livre do Brasil nas Olímpiadas de Londres Fonte: globoesporte.globo.com
FABIOLA MOLINA

Eu lembro como se fosse ontem da minha alegria ao receber pela primeira vez o uniforme da seleção brasileira de natação. Ao abrir a caixa me lembro da euforia de receber camisas, bermudas, chinelos, bonés, tênis, meias, agasalho, capa de chuva, mas alguma coisa estava faltando. Talvez por ter apenas 14 anos não me importei muito com aquilo, mas os anos foram passando, a tecnologia invadiu o nosso esporte e então que comecei a perceber que sempre faltou o principal: a sunga de competição. Dos 16 anos de seleção brasileira posso afirmar que um traje atual e uma touca de competição com a bandeira e o nome nunca fizeram parte do material da equipe de natação. Será que diretores, técnicos, e dirigentes acreditam que o traje e a touca não são tão importantes quanto as camisas e os bonés?

Revezamento 4x100 livre do Brasil nas Olímpiadas de Londres Fonte: globoesporte.globo.com
Revezamento 4×100 livre do Brasil nas Olímpiadas de Londres
Fonte: globoesporte.globo.com

Fiz parte de uma era de transição, onde não se competia mais de ”sunguinha” e sim com trajes super-tecnológicos. A evolução da tecnologia nos trajes tem um fator essencial na performance do nadador. Não conseguia entender como que um acessório tão essencial quanto uma chuteira para um jogador de futebol, uma raquete para um tenista, ou um kimono para o judoca, nunca esteve presente no nosso material esportivo. Desde então a cada competição internacional a maioria dos nadadores brasileiros (exceto os que são patrocinados por uma marca esportiva) ficavam em cima dos representantes das principais marcas atrás de um traje para competir. Me lembro bem nas olímpiadas de 2008 em Pequim atletas da nossa seleção indo nos hotéis dos representantes a pé, dias antes da sua prova. Já no Mundial de Roma 2009, no auge da euforia dos trajes, um dia antes de começar o campeonato, centenas de nadadores se aglomerando em um pequeno espaço para conseguir algo e na maioria das vezes não tinha seu tamanho. Enquanto nossos principais adversários com os trajes que receberam dos seus países estavam no hotel descansando, pensando somente na competição.

Natalie Coughlin na saída do revezamento 4x100 livre dos Estados Unidos nas Olímpiadas de Londres. fonte: usa today
Natalie Coughlin na saída do revezamento 4×100 livre dos Estados Unidos nas Olímpiadas de Londres.
fonte: usa today

Praticamente todas as principais federações tem um patrocinador que fornece o material de competição. O Brasil tem hoje como patrocinador esportivo a maior marca na natação mundial, a Speedo. No entanto, a Speedo do Brasil mandou para a nossa seleção que competiu o Pan-Pacifico na Austrália esse ano uma mochila com camisas, bermudas, chinelo, tênis, meias e agasalho menos o traje. Mas ao entrar no site da Speedo Brasil a primeira coisa que aparece é a propaganda do novo traje tecnológico. Não consigo entender porque que os principais atletas do país não tem o direito de receber esse traje.

Nadadora do Brasil nas eliminatórias dos 100 borboleta nas Olímpiadas de Londres. fonte: olimpiadas.uol.com.br
Nadadora do Brasil nas eliminatórias dos 100 borboleta nas Olímpiadas de Londres.
fonte: olimpiadas.uol.com.br

Infelizmente não é só o traje, mas nunca ganhamos uma touca com a bandeira e com o nosso nome que fosse devidamente aprovada pela FINA e óculos para competir. Vendo uma foto dos nossos nadadores em Londres dificilmente alguém fora do nosso meio conseguirá identificar o atleta. O nosso nome e a bandeira na touca era o mínimo que podíamos ter. Isso me entristece profundamente, porque o que mais queria era poder ter o orgulho e o prazer de ter a nossa bandeira na cabeça e a tranquilidade de ver um traje dentro do material da seleção brasileira. Tomara que as prioridades mudem dando a devida importância as peças mais essenciais no nosso uniforme.

 

Por Henrique Barbosa, atleta olímpico do Brasil em 2008 e 2012, recordista sul-americano dos 100 e 200 peito

2 Comentários

  1. tentei abrir todas as fotos referidas; nenhuma abriu; a indicação era “broke” älguem entrou aqui antes e deve ter danificado o anexo…coincidência?

  2. Eu espero muito que o Brasil comece a dar mais valor a nataçāo, um dos esportes mais amado no mundo, e tāo pouco valorizado no nosso país. Muito triste a realidade que nossos atletas vem enfrentando para poder chegar em algum lugar. Alerta muito bem feito Henrique. Parabéns!

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