Por Plínio Rocha
No Twitter: @pliniorocha77

Grant Hackett voltou a treinar. É uma baita notícia para o mundo da natação. Trata-se de nada menos do que o melhor fundista da história desse esporte.

É evidente que a associação imediata é com a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. É evidente que essa foi a primeira pergunta que fizeram ao australiano, que se resumiu a responder, de maneira seca: “Estarei com 36 anos, na época”.

Não disse que sim, não disse que não.

Mas é difícil acreditar que o sujeito não tenha isso em mente. Um cara que foi o que ele foi é movido a esse tipo de desafio. Hackett, acima de tudo, precisa de muita motivação para voltar a encarar a dura rotina da piscina e da sala de musculação. Não faria isso, certamente, se a meta fosse disputar o Campeonato Australiano.

E talvez ele tenha uma coisa a favor dele. Como dito, é um fundista. Foi recordista mundial dos 200m livre, é verdade, mas foi nos 800m e, principalmente, nos 1500m que reinou. Nesta última prova, não perdeu nem uma final sequer durante quase 12 anos. Foi campeão olímpico em Sydney-2000 e Atenas-2004. Foi prata em Pequim-2008. Foi campeão mundial em Perth-1998, Fukuoka-2001, Barcelona-2003 e Montreal-2005. Um monstro.

Por ser um fundista, a idade pode pesar menos. Complicado é um cara de 36 anos querer alinhar ao lado de Cesar Cielo, Matheus Santana, James Magnussen, Nathan Adrian, os franceses, os russos (que Roland Schoeman e Anthony Ervin não leiam este texto, por mais que tenham um pouquinho a menos de idade, mas já passando dos 30). Mas quando a coisa se resolve em 14 minutos e pouco, em média, outras coisas contam muito. Experiência, cadência de prova, resistência, maturidade. E, aí, Hackett pode tentar encontrar alguma vantagem.

Mesmo assim, é arriscado acreditar que ele nadaria lado a lado com um Sun Yang, por exemplo. Mas é legal só de imaginar se um cara que nem ele se classificasse para uma final no Rio-2016. E, da mesma maneira, é difícil acreditar que não ficaria, pelo menos, entre os oito melhores. Você apostaria o contrário?

Claro que, assim como aconteceu com Ian Thorpe, esse tiro pode sair pela culatra. Ele pode, por exemplo, passar pelo “vexame” de nem sequer se classificar nas seletivas nacionais. O que faz com que por mais que o cara tenha sido quem foi, um verdadeiro herói australiano, ele carregasse uma mancha na carreira.

Hackett é venerado no país dele, assim como todos os grandes nadadores. A natação na Austrália é como o futebol no Brasil. Michael Klim é outro cara que manda prender e soltar por lá. Brett Hawke é respeitadíssimo. Acreditava-se que Eamon Sullivan também fosse ser, mas as dores nas costas talvez tenham impedido que isso acontecesse. Atualmente, Magnussen vem tentando ocupar esse espaço. Na velha-guarda, Kevin Berry foi esse cara. Entre as mulheres, Dawn Fraser, Petria Thomas, Lisbeth Lenton, Leisel Jones, Susie O’Neill, Stephanie Rice, para citar algumas, carregam esse status. A lista é extensa.

Mas com Hackett é diferente. Na história, ele estará apenas abaixo de Thorpe. Mesmo assim, há quem veja no perfil de bom moço, líder e capitão uma vantagem. Quando anunciou a aposentadoria, em 2008, foi capa de praticamente todos os jornais do país. Assim como tem sido, agora, por essa tentativa de voltar.

O fundista, assim como o Thorpedo (o apelido mais legal da história da natação, como sempre digo), enfrentava problemas de saúde. Ficou dependente de um remédio contra a insônia. Teve de fazer tratamento. Aos poucos, foi deixando de aparecer publicamente. Trabalhava na área de finanças, apresentava um quadro em um programa de TV. Abandonou tudo. Tinha de se curar e, quando isso aconteceu, foi retomando a vida. E, naturalmente, por esse processo passava reencontrar a velha e boa amiga, a piscina.

E Hackett quer voltar. Vai suar sangue, nos próximos dois anos. Sim, porque mesmo sem admitir, ele sonha em competir no Rio. Esse tipo de coisa corre no sangue desses caras, se mistura com o suor, é uma dose de adrenalina mais intensa do que qualquer outra coisa. Tem muita categoria para conseguir isso, e se pegar o avião para a Cidade Maravilhosa, em 2016, o pódio vai ser um detalhe.

Legal vai ser ver o cara subindo no bloco, alinhando com os melhores do mundo, dando braçadas, pernadas, batendo a mão na borda. A natação tem disso, ver os ídolos na piscina, e o que ele tinha de conquistar, afinal, já conquistou. A medalha, no Rio de Janeiro, vai junto com a bagagem se ele conseguir carimbar o passaporte.

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Plínio Rocha é editor do Diário de S.Paulo e assina a coluna Na Raia no Best Swimming desde 2007

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