Papo de olímpico: Será que estamos no caminho certo?

7
1611
FABIOLA MOLINA

Aprendi a nadar com cinco anos de idade e desde então não sai mais das piscinas. Tive uma carreira vitoriosa, mas muito além das medalhas e dos recordes que conquistei, pude também visitar o mundo, estudar, conhecer pessoas e fazer amigos. Tive o prazer em morar e treinar em cidades como Belo Horizonte (minha cidade natal), Rio de Janeiro, Berkeley, Key Largo, Paris, Auburn, Barcelona e São Paulo. Aprendi muito e presenciei bastante coisa ao longo desse tempo. Portanto, agora um pouco mais experiente, penso que é uma boa hora para poder debater com os internautas e amantes desse esporte um pouco mais sobre natação na visão de quem está literalmente dentro d’água. A idéia é expor um pouco do lado do atleta, já que poucos tem essa oportunidade e muito se tenha a falar. Não quero polemizar e nem mudar o mundo, mas sim refletir sobre algumas coisas, mas tudo em prol do esporte. O que mais quero é o melhor para a natação!

Depois do “vexame” do 7×1 da Alemanha na nossa seleção durante a Copa do Mundo no Brasil não pude deixar de notar que todas as emissoras de televisão, internet e rádio, se perguntavam como poderia ter sido diferente e como a organizada Alemanha chegou a ser tão superior ao talento Brasileiro. Ao assistir inúmeras mesas redondas fiquei me questionando ao meio de algumas soluções para o nosso futebol, como seria a discussão se o esporte fosse a natação. Será que estamos caminhando na direção certa?

A estrutura da seleção de futebol da Alemanha surpreendeu a todos, mas o que mais chamou a atenção foi a organização e no planejamento feito. Hoje, a CBF está dando mais atenção as categorias de base e procurando se inspirar ao máximo nas ideias da Alemanha. Na natação temos como países de ponta os Estados Unidos e a Austrália. Sempre se renovando e disputando medalha nas Olímpiadas e mundiais em diversas provas. Portanto nada mais justo do que seguir um padrão parecido com essas potências para tentar no futuro alcançar um sucesso de um planejamento e não só esperar que um talento apareça.

Nos Estados Unidos(EUA) os campeonatos nacionais não são transmitidos ao vivo(somente a seletiva olímpica), mas nem por isso o esporte não deixa de ser um dos mais praticados no país. Diferente da Austrália(AUS), que talvez por ser uma grande ilha, todos amem a natação e apoiam ao máximo a seleção. Desde que voltei a treinar no Brasil a maior dificuldade que temos é a falta de competição. Quem quer competir tem que viajar para fora do país e isso chega uma hora que cansa e não faz sentido perder 10 dias de um treinamento para isso. No entanto, tanto a USA Swimming quanto a Australia Swimming proporcionam os seus Grand Prix. Nos EUA tem um formato de 6 etapas com premiação em dinheiro para pódio e geral. Já na AUS os GPs tem 3 etapas sem premiação. Não tenho idéia de quanto isso sairia para a CBDA, mas tenho certeza que com a capitalização certa, a escolha das cidades, e criar uma facilidade para a vinda de estrangeiros, não tenho dúvida de que uma série de Grand Prix no país seria um sucesso. Imaginem por exemplo etapas em Manaus, Fortaleza, Cuiabá, Porto Alegre, e Rio de Janeiro. Além de saciar essa necessidade de competir, estaríamos propagando o esporte pelo país alcançando um público desconhecido. Ao mesmo tempo, ajudando a aumentar a possibilidade de praticantes e quem sabe futuros talentos.

Seguindo a linha de pensamento da elite mundial no esporte, teríamos que ter um plano de gestão coerente. Nada muito complexo. Por exemplo, ao entrar no site da USA Swimming já temos os critérios para todos os campeonatos para todas as seleções até o Rio 2016. Uma coisa importante seria ter um técnico somente da seleção, acompanhando diariamente e visitando os atletas ouvindo e discutindo as necessidades de cada um. Outro assunto que sempre causou debate foi o patrocínio do Correios para os atletas. Esse lado obscuro que cada nadador recebe um valor, isso teria que acabar. Tem que adotar algum critério, até para que futuros nadadores sonhem com mais esse objetivo, além de aumentar a transparência perante a comunidade. Os EUA tem o seu critério um valor estipulado para a seleção A, seleção B e juniores. Já na Inglaterra, eles adotam outro critério mais rigoroso onde tem que ficar entre o top 3, top 8 e top 16 do ranking mundial.

Somos um dos esportes mais populares do Brasil, nossos campeonatos nacionais passam ao vivo na televisão, temos um campeão olímpico, agora só nos resta ter um planejamento pensando nas Olímpiadas de 2016, nos jogos de 2020 e nos de 2024 e assim por diante. Com um planejamento adequado a natação vai crescer. Competições, transparência e infraestrutura de primeiro mundo para que assim possamos exigir resultados de primeiro mundo. Mas será que estamos caminhando na direção certa?

Por Henrique Barbosa, atleta olímpico do Brasil em 2008 e 2012, recordista sul-americano dos 100 e 200 peito

7 Comentários

  1. God enlighten athletes BRICS , I cheer for you.
    Deus ilumine os atletas dos BRICS. eu torço por vocês.

  2. Parabéns pelo texto Henrique! Bom ver quem vive o esporte de dentro d’água se expressando, dando opinião e sugestões pro desenvolvimento da natacao.

  3. Concordo com vc Henrique. Creio que muito pelo fato de atletas, como vc e ex-atletas, comentando, discutindo e cobrando, algumas situações mudaram com relação a organização do nosso esporte aqui no Brasil, mas ainda acho que podemos evoluir ainda mais. Um outro passo importante que deveríamos observar é a difusão da natação em áreas mais necessitadas, utilizando equipamentos que as vezes estão jogados, literalmente abandonados, como no caso da piscina da escola Joao Bento da Costa em Porto Velho – RO e a piscina de 50 metros em São Luis – MA, apresentada aqui na Best Swimming a não muito tempo atras. Vamos difundir estas discussões e assim ganhar força para podermos melhorar ainda mais nossa natação. Abraço.

  4. Na verdade tudo que foi falado e muito correto, mais para haver o boom que os amantes do esporte esperam creio que falte divulgação, a mesma se passa quando a visibilidade, como aconteceu com o volei em 1982 ( eu estava lá) quando duas equipes base da selaçao de 1984 chegou a PRATA- e um Homem amante do esporte a vislumbrou que seria possível.Rio (AtlanticaBoaVista)Sao Paulo (Pirelli).Temos idolos do passado aclamados ate hoje, e por conta disto, c/ trabalho e planejamento em excelência, teremos em nossas seleçoes tento masc. como feminina, material umano ate 2024 no minimo.
    como escreves; na nataçao precisamos de mais competições, se possivel em teve aberta, um Grandprix c/ uma etapa em cada cidade, para que as novas geraçoes se espelhem e criem idolos na nataçao e assim teremos nao so um mais varios novos talentos!!
    Ai os Patrocinadores tambem virao com certeza!!
    Que Deus Abençoes os dirigentes

Deixe uma resposta