Na Raia: O (duro) caminho do Brasil no 4x100m livre

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FABIOLA MOLINA

Por Plínio Rocha
No Twitter: @pliniorocha77

Existem dois pontos a serem discutidos sobre o resultado do 4 x 100m livre masculino no Pan-Pacífico deste ano. Dois pontos bem distintos.

O primeiro, e mais evidente, é que foi um resultado incrível para a natação brasileira. Ganhar medalha em competições assim traz benefícios incalculáveis. Porque não se trata apenas de mais uma medalha para a estatística. Trata-se de um resultado pessoal e individual que recai de maneiras diferentes em cada um. É uma injeção de ânimo e motivação que não se consegue de outra maneira. O cara percebe, enfim, que todo aquele sacrifício do dia a dia foi recompensado.

Claro que, para sujeitos como Bruno Fratus, o impacto foi “menor”. Afinal de contas, o cara conquistou uma medalha individual, também. Mas vá perguntar para João de Lucca, Marcelo Chierighini e Nicolas Oliveira se eles não olham para aquela medalha da mesma maneira que Fratos olha para o ouro dele nos 50m livre.

Outro ponto, este mais abrangente, é o raio-X da prova e o que ele significa.

Certa vez, batendo papo com Cesar Cielo, ele me disse que esperava muito do 4 x 100m livre brasileiro. Estávamos no calor de um momento empolgante, porque Matheus Santana havia acabado de bater o recorde mundial dos 100m livre junior pela terceira vez na carreira. Isso foi em abril de 2014.

Mas falávamos, eu e Cielo, que para que essa melhora fosse sensível, é evidente, algumas coisas tinham de acontecer. Uma delas era pontuar que o próprio Cesar tinha de nadar bem a prova. Não dá para fugir da responsabilidade que ele carrega, por tudo o que é, por tudo o que representa, por tudo o que pode fazer.

Dele, se espera que abra para 47s. Não importa o que aconteça. Se cair no meio da disputa, já vira um 47s baixo. Não tem como pensar diferente, se quiser sonhar em beliscar alguma coisa.

Mas, claro, não é apenas ele. Tire as peças de lado, não pense neste momento quem serão os outros três elementos. O que se sabe é que os três têm de nadar para a casa dos 47s para se pensar em alguma coisa realmente grande em um Mundial ou Olimpíada, que é quando a onça realmente bebe água.

Com esse cenário, Matheus Santana vem dando a resposta que dele já se espera. Sem pressão, como tratado na NA RAIA anterior, já nadou para 48s25. Na saída estática. Na parcial da mesma prova, nos Jogos Olímpicos da Juventude, fez 47s73. Bingo, um a menos para se preocupar – e sempre lembrando que ela vai evoluir, certamente.

No Pan-Pacífico, De Lucca abriu para 49s05. Chierighini nadou a parcial dele para 47s91. Fratus cravou 48s. Oliveira fechou para 48s63. Combinaram para 3min13s59.

Foi o suficiente para colar em Austrália (3min12s80) e Estados Unidos (3min13s36). Naquela ocasião. Mais bem preparado, esse povo todo vai nadar bem abaixo disso e a coisa vai ser completamente diferente.

No Europeu, por exemplo, quase que simultaneamente, a França venceu com 3min11s64, seguida por Rússia (3min12s67) e Itália (3min12s78). Ou seja, já foi mais forte. E, mais uma vez, esse povo aí também tem margem para melhorar bastante – a Itália, menos.

O Brasil tem tempo até o Rio-2016. Até lá, muita água vai passar embaixo da ponte. Cielo vai definir se vai nadar essa prova. Santana estará mais maduro e rápido. Fratus vai colocar na balança se isso prejudicará o programa dele, óbvia e justamente voltado para os 50m. Chierighini vai tentar consolidar uma expectativa muito grande que se criou em cima dele, mas ainda não foi completamente correspondida. E os demais vão brigar braçada por braçada para tentar cavar uma vaga aí.

Essa realidade tem dois lados, como uma moeda. A diferença é que nenhum deles chega a ser trágico para a natação brasileira. Não tem como condenar nem criticar muita coisa aí. Mas apenas um deles vai levar ao pódio, seja lá na competição que for. E, para esse, ainda existe um bom trabalho a ser feito.

Quem viver, verá.

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Plínio Rocha é editor do Diário de S.Paulo e escreve a coluna NA RAIA na Best Swimming desde 2007

3 Comentários

  1. Além do De Lucca, quem precisa voltar a nadar como em 2013 é Marcelo Chierighini, que apresentou uma melhora nesse Pan Pacs, mas está distante do nadador q foi no mundial de Barcelona. Precisa repetir a parcial de 47.5 que fez no Mundial do ano passado para entrarmos com reais condições de Ouro.

  2. Acho que o fiel da balança ano que vem será o João De Lucca.O próprio Cielo já falou que acredita nele.
    Acho que o De Lucca é um cara que treinando apenas em longa irá evoluir muito.

  3. A questão é que, nos últimos anos, o revezamento foi tratado de forma esculhambada, em último plano. Tudo bem, não tínhamos um supertime, mas há uma tendência perigosa a jogar o revezamento fora por qualquer mínima chance de medalha individual, já um excesso de proteção aos astros. Países grandes na natação não fazem isso. Esá na hora de acabar com a frescura: o revezamento 4x100m livre TEM QUE SER LEVADO A SÉRIO. Cielo, Santana, Chierighini e Fratus, com o Nilo na reserva, daria um time extremamente forte, é uma medalha praticamente garantida e até com possibilidade de ouro. Que a CBDA e os nadadores parem de brincar com o revezamento e o levem a sério mesmo.

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