Autor • Alex Pussieldi
Fonte • Best Swimming

Não deu Thorpe, não foi desta vez. Desta vez, pois ele mesmo continua a dizer que ainda pretende continuar nadando, pois a alegria de nadar era o que estava lhe fazendo falta. É uma declaração forte, e um sentimento incrível para um dos maiores nadadores de todos os tempos, o maior da Austrália.

Ian Thorpe deixou de nadar em 2006. Na verdade, depois de 2004 em Atenas, Thorpe não nadou quase nada. Foram muitas, mas muitas competições onde ele estava inscrito e não aparecia. Sempre doente, sempre com problemas fora da piscina. Na época, trocou de técnico, veio treinar nos Estados Unidos, fugir do assédio da imprensa australiana, fugir da realidade. Até quando não aguentou mais e anunciou a sua aposentadoria precoce, afinal apenas 24 anos de idade.

O motivo da aposentadoria foi anunciado como “falta de motivação”, mas na verdade foi uma dificuldade em lidar com a pressão.

Pressão esta que foi a dificuldade de voltar a nadar em alto nível. Thorpe voltou a nadar em 2010, mas somente em fevereiro de 2011 anunciou de forma oficial o seu retorno.

O cerimonial anunciado vários dias antes contou com um forte apoio publicitário de uma empresa aérea. Na entrada do luxuoso hotel diversas modelos vestidas de aeromoças recebiam as dezenas de jornalistas. O anúncio, inclusive, determinava Dubai como o seu novo centro de treinamento. O treinador, ah, o treinador ainda não estava decidido, mas o local sim. Por coincidência, naquele mês, a mesma empresa aérea inaugurava um vôo direto de Sydney para Dubai. Thorpe treinou um dia, sim, um dia após o vôo inaugural em Dubai e nunca mais voltou para lá.

O primeiro desafio? Não foi uma competição masters como Dara Torres fez após sete anos fora da piscina. Não foi uma competição regional como Brendan Hansen ou Amanda Beard e até mesmo outro australiano Michael Klim. Thorpe voltou como anunciou, de forma comercial, e lá foi ele para as etapas asiáticas da Copa do Mundo. Sob muitos holofotes, jornalistas e assédio, Thorpe já começou sendo pressionado, e o pior, falhando.

Depois disso, as dúvidas, as hesitações e os questionamentos só fizeram ele se sentir mais e mais pressionado. Thorpe teve de mudar de estratégia, passou a fazer o aeróbico fora d'água, mudou a rotina de competições e se escondeu ao máximo tentando fugir do assédio.

Ninguém me convence que Thorpe não estava preparado para fazer menos do que os 50:35 e os 1:49:16 que fez. Jamais teria sido colocada tanta expectativa e energia se ele não estivesse preparado para isso.

Thorpe fracassou pelo mesmo motivo que deixou o esporte em 2006. Os agentes e as questões financeiras determinaram todo o processo e ao final, uma pena que tenha sido um fracasso total. Menos mal que Thorpe conseguiu ganhar alguns dólares e recuperar a crise financeira que vivia há alguns anos.

Se Gustavo Borges e Fernando Scherer decidirem retornar ao esporte competitivo, isso deve ser matéria para o Globo Esporte e o Esporte Espetacular. Jamais poderia ser a Ana Maria Braga no Mais Você ou mesmo o Fantástico para anunciarem os seus retornos. Thorpe por influência do mercado, acabou sendo envolvido em tudo isso, e ao final não poderá fazer o que ele mesmo disse que gosta de fazer. Tomara que desta vez, o amor pela natação consiga mantê-lo em nosso esporte mas de forma que possa retornar de forma adequada sem sofrer a pressão desnecessária.

Ian Thorpe continuará sempre em nossa memória, como aquele super nadador que foi o único capaz de subir ao pódium olímpico nos 100, 200 e 400 livre na mesma Olimpíada. Um fenômeno que merece respeito e que jamais poderia ter sido exposto da forma que foi. Agora é bola pra frente, e que a alegria de nadar continue em você para sempre.

Alex Pussieldi, editor chefe da Best Swimming Inc.

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