Autor • Alex Pussieldi
Fonte • Best Swimming

 

 

É fácil, soa bonito e agrada ir para as competições nacionais das categorias infantil e juvenil e anunciar os famosos chavões da “Geração Rio 2016”. Na verdade, e as estatísticas comprovam isso, estes atletas são os potenciais da Geração 2022.

 

Acontece que a natação “amadureceu”, as carreiras dos nadadores se extenderam. A profissionalização dos nadadores demorou, mas chegou. Os prêmios e recompensas por recordes e títulos melhoraram de forma substancial incrementando a carreira dos nadadores.

 

Assim, a realidade indica que os nadadores de elite de hoje estão numa faixa compreendida entre 23 a 28 anos de idade para os homens, 21 a 26 para as mulheres. Existem algumas variações de provas, diferenças entre velocistas e fundistas, e também as exceções como atletas nos seus 30 e poucos anos, e o que dizer de Dara Torres aos 43 anos de idade. Estes, entretanto, são exceções numa nova realidade que já extendeu e continua extendo a carreira ativa do nadador de elite internacional.

 

Com 21 anos para mulheres em 2016, a geração 1995, hoje juvenil 2, seriam nomes a serem considerados. Para os homens, com 23 no Rio 2016, é na categoria junior que iremos encontrar a base de nossa seleção.

 

Esta identificação já foi feita pelo departamento técnico da CBDA que mapeou e identificou os talentos para seguir um projeto até os Jogos Olímpicos de 2016.

 

O que ainda não foi feito, e ao que parece, estálonge de ser realizado é a modificação do programa nacional de desenvolvimento das categorias inferiores.  Tal sugestão é no sentido não só de desenvolver “uma geração 2016”, mas diversas gerações transformando nosso país em uma nação olímpica.

 

Mesmo com os bons resultados alcançados recentemente, é inegável que a natação brasileira tem sido abençoada por talentos que aparecem todas as temporadas. Não há um programa de desenvolvimento e aprimoramento que incrementasse tal número e oportunizasse melhores resultados.

 

Alguns itens são vitais na melhoria da natação das categorias inferiores e requerem atenção e direção da CBDA neste sentido.

 

  • Especialização prematura

Continuamos a especializar nossos nadadores nas primeiras categorias, fruto do programa de trabalho, de competição e, por incrível, que pareça, de orientação da prórpria CBDA.

Os nadadores das primeiras categorias, assim como todos na natação brasileira, são limitados a um máximo de uma ou duas provas por dia, eliminando a possibilidade de desenvolvimento de outros nados, distâncias e oportunidades.

A caduca resolução do CND que limitava o número de provas por dia talvez nem exista mais. E por incrível que pareça ainda seguimos utilizando ela como padrão para a natação atual.

 

  • As provas não olímpicas

Ao determinar o Programa Olímpico como prioritário e objetivo final dentro do esporte nacional é incrivelmente inaceitável que ainda tenhamos nadadores sendo convocados para Seleções Nacionais Júnior baseados em resultados destas provas.

Pior que a prova não ser olímpica, é o fato das provas de 50 nos estilos nas categorias inferiores terem uma influência maturacional muito grande, o que minimiza as necessidades de treinamento em comparação com as demais provas. Tais provas poderiam até serem oferecidas, mas jamais serem fator de convocação para o Selecionado Nacional.

Até mesmo o programa nacional das competições absolutas oferece três campeonatos nacionais por ano, e nos três as provas são oferecidas, colocando-as no mesmo padrão e nível das provas olímpicas.

 

  • Falta de incentivo as provas de fundo

O programa de provas de fundo no Brasil é limitado e os resultados indicam um distanciamento dos grandes centros mundiais. A nível estadual e regional as provas de fundo são reduzidas. A nível nacional até mesmo as provas não olímpicas 800 livre masculino e 1500 livre feminino são oferecidas em duas das três competições nacionais absolutas mostrando a menor importância em relação as provas de 50 nos estilos.

Os fundistas têm menos atenção, menos motivação e o pior, uma grande quantidade de clubes no país já determinou que não tem interesse em desenvolver o trabalho de fundo. Isto é extremamente grave e de profundas consequências no futuro.

 

  • A troca de categoria

Outro item que nos distancia de alguns dos principais centros da natação mundial (USA, Austrália) é seguir o modelo do ano de nascimento para a troca de categoria. Tal formato é mais antigo e compromete gerações que nadam contra atletas muitas vezes 11 meses mais velhos.

Nadar com atletas da sua idade pelo menos equipara uma série de fatores maturacionais e psicológicos. O modelo por ano de nascimento é utilizado pelo Brasil assim como em vários países da Europa e segue uma antiga orientação da FINA.

 

 

Baseados nestes problemas identificados em nossa estrutura, apresento algumas sugestões que visam a desenvolver um padrão de reconhecimento e oportunização de talentos para as categorias menores do Brasil visando a formação de uma nação olímpica:

 

  • Eliminação da regra de uma prova ou duas provas por dia por atleta, aumentando para três ou quatro provas por dia. Nos EStados Unidos são cinco provas por dia, sem contar os revezamentos.

 

  • Tirar dos critérios de convocação de qualquer seleção de categorias inferiores, junior incluindo, as provas de 50 nos estilos.

 

  • Eliminar a condição de critério para convocação de treinadores para a Seleção tomando como base as provas não olímpicas.

 

  • Criar uma forma de que atletas sejam obrigados a cumprir determinado padrão competitivo antes de chegarem aos campeonatos nacionais. Ter indices em mais de uma prova, ou indicar provas que sejam obrigatórias que tenham o índice, mesmo que não  nadem no Campeonato Nacional. Até mesmo na Colômbia é obrigatório ter os indices dos 200 medley para se ter o direito de nadar um campeonato colombiano de categorias inferiores.

 

  • Criar um programa de incentivo aos nadadores de fundo, como clínicas, encontros ou até mesmo uma competição, algo que criasse um novo padrão nacional incrementando o interesse das categorias menores por estas provas.

 

  • Modificar o critério de passagem de categorias para o dia de nascimento. Os atletas competiriam na idade que possuem no primeiro dia da competição. O modelo já utilizado em grande escala nos principais centros de natação do mundo.

 

Tais idéias não são absolutas ou a garantia de resultados, mas sim uma forma de promover a discussão entre os treinadores e dirigentes que comandam a natação brasileira no sentido de oportunizar e desenvolver um programa mais comprometido com o futuro do nosso esporte no Brasil e principalmente nos colocar no patamar de uma nação olímpica.

 

Por Alex A. Pussieldi, editor chefe Best Swimming Inc. 

0 respostas
  1. Emerson Ramirez Farto
    Emerson Ramirez Farto says:

    Excelente reflexao!!!! trabalho aqui na Espanha como treinador de nataçao em um centro de tecnificaçao esportiva alem de estar na equipe tecnica da seleçao Espanhola junior e aqui estamos trabalhano juntos com Bill Sweetenham e o objetivo é animar aos nadadores a competirem e treinarem estas provas e aqui estamos tendo resultados muitos bons, em agosto estarei no Brasil para passar minha experiência em um curso que vou impartir junto com Alberto Klar. Uma vez mais, excelente artigo e espero que a nataçao Brasileira abra os olhos para estas provas ja que na minha opiniao sao basicas para qualquer especialidade dentro da nataçao

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  2. Ricardo
    Ricardo says:

    Excelente artigo. Parabéns pela clareza de idéias e sobretudo a forma que falou sobre treinamento de fundo e meio fundo.
    Meu filho faz parte desse grupo e sofre com a falta de empenho dos dirigentes.

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  3. Prof. Rogerio Mixirica Nocentini
    Prof. Rogerio Mixirica Nocentini says:

    Artigo muito bom, mas que soa extremamente utópico. No Brasil as provas de velocidade são muito valorizadas. Os resultados das provas de 100 e 50 metros são comemorados em prosa e verso, enquanto os nadadores de fundo tem pouco espaço na imprensa, nas competições ou nas seleções. Excetuando-se os brasileiros e campeonatos estaduais, duas das mais importantes competições do Brasil – Troféu Kim Mollo e Troféu Chico Piscina, só tem provas de velocidade no seu programa, os nadadores de fundo tem que se contentar com um 400 metros livre ou disputar com os velocistas uma vaga na seleção.
    As eliminatórias de provas longas nos campeonatos estaduais e nacionais são jogados para o final das etapas. Os índices são bem mais fortes do que os índices de provas curtas e por aí vai.
    Que tem que mudar, todos concordam, mas que está disposto a fazê-lo? E mais, por favor não me falem em programa Olímpico! Piada.
    Rogerio Mixirica Nocentini

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  4. lala
    lala says:

    Boa noite coach. Dizer o que de um retrato tão fiel que poucos propõe-se a desenvolver. Sabedoria que você adquiriu na beira da piscina, nada como uma experiência viva para se ter propriedade em tal fato detectado.Talvez em algum momento possamos ter dirigentes com estas diretrizes. Mas ai me pergunto? Qual o papel de uma Confederação e de uma Federação? Não seria exatamente ter estes tipos de questionamentos que você mencionou? Seja como for estamos muito longe mesmo de qualquer profissionalismo em nosso esporte. Ainda bem que temos excelentes famílias que respeitam seus filhos(atletas) e elevam este esporte. Chegar lá sem os PAITROCINIOS, jamais poderíamos. Ouvir algumas besteiras tipo:” natação Brasileira cresce em nosso país graças aos esforços das inúmeras Leis e patrocínios.” (bobagem). 2016 estarei vivo esperando sinceramente que a comunidade aquática tenha memória viva das grandes promessas e possamos cobrar a concretização ou não das mesmas.Parábens Alex. Pessoas como você fazem a diferença. E isto faz com que ainda tenha esperança no esporte amador de um país que irá e acreditou ter possibilidade de sediar uma Olimpíada.

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  5. Rodrigo
    Rodrigo says:

    Alex, não tiro uma vírgula se quer. Excelente artigo. Parabéns. Vamos chegar lá. Com muita paciência e conversa. Artigos construtivos e conclusivos como esse vão ajudar. Através de acusasões, brigas, imposições não chegaremos a nada. Convido a comunidade aquática a interagir mais sobre esse assunto, fomentando mais pesquisas, novas formas etc. Propostas com tom de imposição e briga não levará a nada. Vamos chegar lá. Parabéns Coach.

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  6. Christina
    Christina says:

    Coach, excelente comentario, sem duvida os atletas do rio 2016 estao na categoria junior. Pena que a CBDA ainda nao viu desta forma, enaltecendo os atletas das categorias infantil e juvenil. Em relacao as suas sugestoes é de grande valia para este esporte aquatico. Precisamos valorizar mais os atletas da categoria junior e prioriza-los com selecoes a nivel internacional.
    Parabens mais uma vez pela materia

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  7. jose
    jose says:

    muito boa sua reflexao coach.Poucos clubes nacionais estimulam as provas de fundo . Nossa diferenca eh gritantes com Australia, Eua ….creio que o record nacional ainda eh do talentoso Djan Madruga . O criterio das iadesproposto eh corretissimo . Leiam o livro Outlier do Malcom Gladwell que comprova a sua tese .

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