Editorial: A FINA não deve, não pode, e não vai aceitar o recorde de Adam Peaty

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FABIOLA MOLINA

Aqui vou me arriscar, vou mesmo. Não pelo “não deve”, pois as regras provam que aprovar os tempos “ajustados” não tem qualquer corroboração das regras da entidade. Também pelo ‘não pode”, pois aprovar algo assim expõe a entidade, seus princípios e liderança do esporte a nível mundial, mas pelo “não vai”.

É uma previsão! Baseada no histórico da FINA, no cumprimento de suas regulamentações e exigências. A tendência é essa.

Acompanhe meu raciocínio para entender as conclusões. Tudo começa com Adam Peaty fazendo um dos mais espetaculares recordes e performances da história no segundo dia de competição. Inicialmente 57.00 nos 100 metros nado peito baixando em 13 centésimos do recorde mundial.

Assisti a prova ao vivo, no live streaming da LEN, e já na saída, o locutor inglês gritava “wow” para a fantástica velocidade de reação de Adam Peaty, 0,47 de segundos. Para quem acompanha o nadador, sabe que é um tanto usual para ele tal valor, mas ficou mais pelo entusiasmo, que qualquer outra coisa.

Peaty passou os primeiros 50 metros quatro centésimos mais lento do que seu parcial do recorde mundial anterior, mas fez uma volta espetacular (30.35) e tocou a borda para 57.00. O mundo comemora, a natação faz festa.

Minutos depois da prova, recebo uma mensagem do treinador Jefferson Neves, o qual junto com Omar Gonzalez, dividimos as responsabilidades no trabalho da conquista da medalha de bronze dos 100 metros nado peito de Felipe Lima no Mundial de 2013. Jefferson foi o primeiro a me alertar: “Coach, você viu estas velocidades de reação?”.

Olhando com atenção, Jefferson tinha razão. Não era só Peaty com os 0,47, mas vários outros atletas fazendo velocidades de reação muito abaixo da média, todos nas melhores de suas vidas no resultado oficial da prova.

Inicio junto com Rodrigo Zacca, Doutor na Ciência do Esporte em Porto, Portugal, uma análise mais detalhada da prova e ambos fazemos a cronometragem pelo vídeo publicado da prova. Em várias tentativas, as marcas pelo som de partida até a chegada de Peaty apresentam tempos entre 57.4 a 57.5.

Com este disparate entro em contato com Braden Keith, editor do site americano SwimSwam. Dividimos o consenso de que as velocidades de reação estão incorretas, mas Keith e sua equipe editorial fazem a tomada de tempo pela luz que aparece no pé do juiz de partida e não pelo som, o que faz mais sentido, e fica mais preciso. Tempos encontrados entre 56.9 a 57.1.

O disparate fica menor, mas ainda a dúvida. Tempos manuais nunca podem ser mais baixos do que os tempos eletrônicos. O Blog do Coach faz então a postagem questionando a melhor saída da história de Peaty. Naquele momento, o que era consenso entre todas as pessoas consultadas era de que as velocidades de reação estavam incorretas (link). Foi a única publicação mundial a se alertar para o disparate das marcas.

Pouco mais de uma hora depois da publicação, a LEN, Liga Europeia de Natação apresenta em nota oficial uma decisão de modificar o tempo de nove provas das finais do segundo dia indicando que todas tiveram seus tempos ajustados em 0,1 décimo de segundo pelo mau funcionamento do sistema de cronometragem.

Sem dar detalhes, dos motivos, de como o ajuste foi feito, e até mesmo as razões de tal mau funcionamento, novos resultados são elaborados e o recorde mundial de Adam Peaty passa a ser 57.10, porém ainda abaixo dos 57.13 do recorde mundial anterior.

Ontem, a entidade faz um pronunciamento em entrevista coletiva (link) onde explica os detalhes do ocorrido e como se chegou a este fator de ajuste de 0,1 décimo de segundo. Também expressa confiança que a FINA deve reconhecer o recorde mundial pois todos os procedimentos foram seguidos para tal.

Reconhecimento de recordes mundiais requer uma série de protocolos. Além dos resultados eletrônicos, medição de piscina, relatório assinado por um árbitro FINA, teste completo anti-doping (sangue e urina), para somente então, o reconhecimento da marca.

Não há nas regras da FINA, nem na SW11 que fala da cronometragem eletrônica, nem na SW12 que fala nos recordes mundiais a possibilidade de ajuste na cronometragem como ocorreu em Glasgow. Existe um artigo que destaca que se os tempos automáticos eletrônicos não funcionarem, podem ser utilizados os tempos semi-automáticos, que não foi o que aconteceu no Europeu. Lá, segundo a própria LEN, foi um “ajuste” dos tempos.

A favor da aprovação do recorde, existe o apelo de mídia, o nome de Adam Peaty, a promoção da natação, os árbitros e membros do Comitê Técnico da FINA presentes ao evento. Contrário a aprovação do recorde, as regras, o histórico da FINA, uma divergência política muito forte entre o Presidente da LEN, Paolo Barelli, e a diretoria da FINA, e por incrível que pareça, o apelo da mídia, que também se divide na expectativa do cumprimento das regras.

O caso, bem provavelmente, deve ir parar no CAS/TAS. Assim como foi no Campeonato Europeu de 2014, quando Adam Peaty quebrou o recorde mundial dos 50 metros peito e integrou o revezamento 4×100 metros medley misto também com recorde mundial e marcas que não foram reconhecidas pela ausência do exame anti-doping de sangue, exigidos pela regulamentação. A British Swimming não aceitou a decisão da FINA em rejeitar as marcas e levou o caso para o CAS/TAS. Lá, os auditores entenderam que foi uma falha da organização em não providenciar o referido exame, e os atletas recordistas não poderiam ser prejudicados. Os recordes foram aprovados dois anos depois.

Agora, a tendência é a mesma. Deve ser no CAS/TAS a decisão final para um caso que expõe a falha da LEN, da organização desta competição e o mico mundial. Culpar a FINA por qualquer que seja sua decisão é no mínimo injustiça.

Em todo este processo se existe alguém errado, é a LEN. A FINA deve cumprir o seu papel, de entidade regulamentadora e legisladora do esporte, seguindo e aplicando as devidas regras.

Por Alexandre Pussieldi, editor chefe da Best Swimming

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