FABIOLA MOLINA

O sonho segue o mesmo, a rotina, o programa, o local, e talvez, a exigência não. Bruno Fratus vai abrir 2018 rumo a Europa, vai se encontrar com o seu novo-velho treinador para um período de treinamentos e competições abrindo o ano em que pretende se sagrar bi campeão do Pan Pacífico e continuar a fazer parte do revezamento 4×100 metros nado livre rumo a Tóquio 2020.

Fratus fechou um 2017 estranho, diferente. Na água, teve seus melhores momentos na carreira. Com duas medalhas de prata no Mundial de Budapeste, nos 50 metros nado livre e no revezamento 4×100 metros nado livre, foi o melhor nadador do Brasil na competição.

Fora dela, começou e terminou o ano sem clube. Dispensado pelo Pinheiros no final de 2016, ficou meses até acertar com o Internacional de Santos. Sem qualquer ajuda financeira, o clube apenas contribuiu na passagem para a disputa do Maria Lenk. Há poucas semanas, foi informado de que a parceria para 2018 não será renovada.

Bruno Fratus. Campeonato Mundial de Desportos Aquaticos. Duna Arena. 22 de Julho de 2017, Budapeste, Hungria. Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

Na borda, seu treinador Brett Hawke teve de se afastar dos treinamentos. Por orientação da Universidade de Auburn, onde é head coach, Hawke recebeu a recomendação de não mais comandar o time dos atletas profissionais. Fratus até tentou, mas em poucas semanas viu que não iria encaixar no programa do novo treinador, o espanhol Sérgio Lopez.

Nas crises é que aparecem as grandes soluções. Fratus recebeu o programa por escrito de Hawke e teve a sua esposa Michelle Lenhardt como a nova “treinadora”. Personal trainer, life coach e agora se registrando oficialmente como técnica nas exigências da USA Swimming, era a nova parceria que estava se firmando.

Bruno Fratus. Coletiva de imprensa da selecao brasileira de natacao. 31 de Julho de 2016, Sao Paulo, SP, Brasil. Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

Sem patrocínios que sumiram depois do Rio 2016, Fratus teve o apoio do COB e da Arena e com eles foi disputar o Circuito Mare Nostrum, o Aberto da França na Europa antes do Mundial. Lá, se reencontrou com Arilson Sores da Silva, seu antigo técnico de Pinheiros. Foi com Ari que chegou a final dos 50 metros nado livre no Mundial de Shanghai em 2011 e na quarta posição olímpica de Londres 2012. Depois, esteve com Ari treinando um período na Itália e que foi quebrado quando teve de retornar ao Brasil para uma cirurgia no ombro.

Arilson atualmente é funcionário do Comitê Olímpico da Ucrânia onde treina o velocista Andryi Govorov. Durante o giro pela Europa do ano passado, os planos se afinaram e uma perspectiva de voltarem a trabalhar juntos se vislumbrava.

Bruno Fratus. Campeonato Mundial de Desportos Aquaticos. Duna Arena. 30 de Julho de 2017, Budapeste, Hungria. Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

“Treinando muito” como diz a esposa/técnica Michelle Lenhardt, Fratus teve os seus melhores resultados pessoais na carreira em 2017. Com ou sem dificuldade, os resultados vieram. No Maria Lenk, o melhor 100 livre da carreira com 48.50, baixando dos 48.57 que mantinha desde 2014. No Mundial, os 21.27 derrubaram os 21.37 do Open 2015 e se constituiram no melhor 50 livre do Brasil na era pós-trajes.

Melhores 50 metros nado livre da era pós-trajes no Mundo

Tempo Nadador País Ano
21.15 Caeleb Dressel USA 2017
21.19 Florent Manaudou França 2015
21.27 Bruno Fratus Brasil 2017
21.29 Caeleb Dressel USA 2017
21.32 Cesar Cielo Brasil 2013
21.32 Florent Manaudou França 2014
21.32 Florent Manaudou França 2016
21.32 Ben Proud Grã-Bretanha 2017

 

Fora isso, a regularidade foi muito forte no ano de Fratus. Foram 13 vezes abaixo dos 22 segundos em 2017. Ninguém fez isso. E olha que Fratus não compete desde o Mundial de Budapeste, ou seja, foram 13 vezes quebrando os 22 segundos em sete meses.

Nos 100 metros nado livre, Fratus até este ano havia nadado duas vezes na casa dos 48 segundos. Em 2017, nadou quatro!

Fratus segue sem clube, segue sem Brett Hawke, e vai iniciar uma nova fase com Ari. Para isso, junto com a esposa/treinadora Michelle, se mudaram para Coral Springs. Foram bem acolhidos pelo head coach do Coral Springs Swim Club, o brasileiro Bruno Fratus.

Lá, tem a sua própria raia onde treinam diariamente seja na piscina de 50 metros como na de 25 jardas. O tempo da Flórida é mais agradável e Coral Springs é uma cidade muito acolhedora. Moram perto, quase sempre a dupla vai de bicicleta para o treino.

Michelle vai na frente, tem de treinar antes do marido. Cumpre um rigoroso programa e tem trabalhado bastante com seus clientes que seguem seus programas de Life Coaching. Depois de duas horas de treino, chega Bruno, é a hora de cuidar de seu treino.

Os dois se adaptarem bem a vida americana. Gostam e curtem viver nos Estados Unidos. Juntos de seus dois cachorros adotados, Carlos e Harrison, fazem uma bela família brasileira vivendo na América.

Bruno Fratus. Campeonato Mundial de Desportos Aquaticos. Duna Arena. 22 de Julho de 2017, Budapeste, Hungria. Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

A rotina é dura e o sacrifício enobrece a causa. O sonho segue o mesmo: a medalha olímpica que ainda não veio. Nos primeiros dias de Janeiro, a dupla viaja para Tenerife, na Espanha. Lá, serão duas semanas de training camp antes da Flanders Cup, na Antuérpia. Mais uma semana de treinos e outra competição em Luxemburgo, o Euro Meet.

2018 é ano de Pan Pacífico. Vai ser em Tóquio, local dos Jogos Olímpicos de 2020. Fratus foi nossa única medalha de ouro na última edição em 2014, em Gold Coast, na Austrália. Venceu os 50 metros nado livre com 21.44, recorde da competição. Quer repetir o título, coisa que desde Tom Jaeger em 1991 ninguém consegue fazer no Pan Pacífico.

Todos os campeões dos 50 metros nado livre no Pan Pacífico

ANO LOCAL TEMPO NADADOR PAÍS
1985 Tóquio, Japão 22.73 Matt Biondi USA
1987 Brisbane, Austrália 22.32 Tom Jaeger USA
1989 Tóquio, Japão 22.12 Tom Jaeger USA
1991 Edmonton, Canadá 22.21 Tom Jeager USA
1993 Kobe, Japão 22.68 Jon Olsen USA
1995 Atlanta, USA 22.30 Gary Hall Jr. USA
1997 Fukuoka, Japão 22.42 Bill Pilczuk e Ricardo Busquets USA e Porto Rico
1999 Sydney, Austrália 22.06 Brendon Dedekind África do Sul
2002 Yokohama, Japão 22.22 Jason Lezak USA
2006 Victoria, Canadá 21.84 Cullen Jones USA
2010 Irvine, USA 21.55 Nathan Adrian USA
2014 Gold Coast, Austrália 21.44 Bruno Fratus Brasil

 

O programa de 2018 é fazer o melhor no Maria Lenk, garantir vaga para o Pan Pacífico, mas o Mundial de Curta no final do ano também está nos planos.  Mesmo sem patrocínios, Fratus quer ter mais exposição, competir em alto nível e se manter no topo. Embora não sendo um “nadador de curta”, é das dificuldades que ele se sobressai.

Bruno Fratus durante final dos 50 metros livre no OAS. Jogos Olimpicos Rio 2016. 12 de Agosto de 2016, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Foto: Satiro Sodré/SSPress

Ao final de 2017, Bruno Fratus é o único Top 8, ou melhor o único Top 3, ou o único Top 2 do ranking mundial em provas olímpicas da natação brasileira. Olhando com atenção, numa análise mais detalhada, estão em Fratus as chances brasileiras de medalha nos Jogos Olímpicos de 2020. Seja nos 50 metros nado livre ou no nosso revezamento 4×100 metros nado livre.

Deste Fratus não quer sair. Nunca como em 2017 ele fez tanta questão de entrar. Agora, não quer sair.

Quem acompanhou o treinamento e o programa da equipe até Budapeste sabe que Fratus foi o primeiro a acreditar que o revezamento iria disputar o ouro. Sim, isso mesmo, o ouro. E disputou.

Bruno Fratus durante semifinal dos 50 metros livre no OAS. Jogos Olimpicos Rio 2016. 11 de Agosto de 2016, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Foto: Satiro Sodré/SSPress

Nas primeiras vezes que Fratus mencionava o objetivo de ganhar o ouro no Mundial o sorriso amarelo aparecia. Seja nos seus companheiros, na comissão técnica e até mesmo deste que lhes escreve.

E ele estava certo. Nunca chegamos tão perto, foram apenas 32 centésimos a diferença do ouro americano para a prata brasileira. Relembrando a prova, Fratus reclama da sua virada, diz que se não fosse ela teria tocado na frente de Nathan Adrian.

Gabriel Santos, Bruno Fratus, Cesar Cielo e Marcelo Chierighini comemoram a prata no 4 x 100m livre no Mundial de Budapeste

Uma das maiores lições da prata de Budapeste neste revezamento foi acreditar na equipe. O espírito do grupo foi outro, a disposição, a entrega. Hoje, não mais apenas Gabriel Santos, Marcelo Chierighini, Cesar Cielo e Bruno Fratus querem estar neste 4×100 livre. Existe uma legião de atletas consagrados e outros em plena ascensão que sonham em fazer parte deste time. Seja no Pan Pacífico, no Mundial de 2019 e principalmente na Olimpíada de 2020.

Lista dos melhores tempos dos 100 metros nado livre do Brasil em 2017

TEMPO NADADOR
48.11 Gabriel Silva Santos
48.11 Marcelo Chierighini
48.25 Pedro Spajari
48.50 Bruno Fratus
48.92 Cesar Cielo
49.01 Matheus Santana
49.24 João de Lucca
49.32 Breno Correia
49.34 André Luiz Souza
49.57 Leonardo Alcover
49.59 Henrique Martins
49.59 Marco Antonio Ferreira Jr.
49.70 André Pereira
49.79 Lucas Peixoto
49.80 Marco Antonio Macedo

 

Fratus não quer sair deste time. Não abre mão da vaga. Por maiores que sejam as dificuldades, vai estar lutando por ela. Do seu lado a esposa/treinadora seguindo o programa de Ari, e na torcida dos cachorros/filhos Carlos e Harrison.

É muita coisa mudou para Bruno Fratus. Só não muda o tal do objetivo. A danada da medalha olímpica.

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