Grant Hackett, da glória ao drama

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Foi a notícia triste da semana no mundo dos esportes aquáticos. Atletas, por melhores e mais expressivos que sejam, são seres humanos, com suas conquistas e também perdas. São pessoas que têm problemas e muitas vezes crises que vão muito além do esporte. Não são deuses, imaculados e alheios aos agrouros da vida.

Como a imprensa australiana reagiu ao caso Grant Hackett 

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Grant Hackett foi preso na quinta-feira após discussão com sua família onde terminou ameaçando seus pais com uma faca. Foi contido por seu irmão Craig e preso na residência da família em Gold Coast a pedido do próprio pai Nev Hackett.

Constrangidos, os familiares expressaram dor, mas não esconderam as dificuldades que o ex-nadador australiano vive. Revelado que Hackett tem tido distúrbios mentais e sugerem a sua internação.

Sem crime registrado, Hackett foi liberado horas depois. Ainda no mesmo dia, Hackett usou sua conta de Instagram para revelar que fora agredido pelo irmão, o qual chamou de “violento”. Ontem, Hackett tinha uma consulta médica e sumiu por algumas horas causando novo drama na família.

Postagem de Grant Hackett no seu Instagram ao deixar o hospital 

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Considerado por muitos, Grant Hackett foi um dos maiores nadadores de fundo da história. Seu recorde dos 1500 metros nado livre foi o recorde que mais durou na natação moderna. Os 14:34.56 feitos por ele no Mundial de Fukuoka em 2001 ficou 10 anos e dois dias até ser superado por Sun Yang no Mundial de Shanghai em 2011 com 14:34.14.

O recorde dos 1500 livre no Mundial de Fukuoka 2001

A carreira de Hackett é uma das mais gloriosas da natação australiana. Estamos falando de 58 medalhas internacionais incluindo Olimpíadas, Campeonatos Mundiais de Longa e Curta, Commonwealth Games, Goodwill Games, e Pan Pacífico.

Antes de Michael Phelps se sagrar no primeiro tri campeão olímpico da história nos 100 borboleta de Londres em 2012 (hoje ele já é tetra dos 200 medley), Grant Hackett era o nome para a façanha. Depois de se sagra campeão dos 1500 livre em Sydney 2000, com apenas 20 anos, se tornou bi em 2004 em Atenas e era o favorito para Beijing 2008. Terminou com a prata perdendo para Oussama Mellouli da Tunísia por pouco menos de um segundo de diferença.

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A derrota que valeu sua primeira aposentadoria foi explicada anos depois por seu treinador, o famoso Dennis Cotterell. Conhecido pelo seu trabalho intenso de fundo Cotterell diz que Hackett foi afetado pela ingestão do comprimido Stilnox. Conhecido para tratamento de insônia ocasional, transitória ou crônica, o remédio tem sido receitado por alguns médicos para atletas em competições, onde o aumento de tensão e a ingestão de cafeína pode alterar o sono dos mesmos.

Hackett com a mãe Margareth e o irmão Craig
Hackett com a mãe Margareth e o irmão Craig

Alguns especialistas no assunto dizem que o Stilnox e seu principal componente Zolpidem não conseguem levar o usuário ao sono profundo, refutando a sua capacidade “repositora”. Pior é o uso do mesmo combinado com bebidas alcólicas e seu efeito alucinógeno. Tal situação aconteceu com a equipe de revezamento australiana do 4×100 metros nado livre nos Jogos de Londres em 2012. Os atletas causaram inúmeros problemas disciplinares e foi constatado o uso do medicamento no episódio.

O Stilnox já estava proibido pelo Comitê Olímpico Australiano anterior a este incidente, embora a medicação não esteja na lista das substâncias proibidas da WADA. O Stilnox voltou a ser citado na carreira de Grant Hackett em 2014, quando o australiano foi internado num centro de reabilitação nos Estados Unidos para conter o vício no medicamento.

Tempos felizes, Hackett seus filhos e a ex-esposa
Tempos felizes, Hackett seus filhos e a ex-esposa

Antes da sua internação, Hackett teve pelo menos dois episódios de alteração de comportamento com denúncia a polícia. Em 2011, teve uma séria discussão com a ex-esposa Candice Alley e que violentamente destruiu grande parte da mobília da residência. Em 2014, hospedado em um hotel apareceu na recepção apenas de cueca durante a noite mostrando sinais de desorientação e procurando seus dois filhos.

Hackett viajou para o Arizona em fevereiro de 2014 e ficou internado na mesma clínica onde Tiger Woods foi tratado para a sua adição de sexo. No retorno a Austrália apareceu na piscina durante o Pan Pacífico em Gold Coast. Ali, nascia a vontade de voltar a nadar.

Em 2015, aos 34 anos de idade, Grant Hackett estava de volta a piscina e de volta ao Miami Swim Club, seu primeiro e único clube na carreira sob o comando de Dennis Cotterell. O objetivo era um só, voltar a se divertir e integrar um possível revezamento 4×200 livre da equipe no Campeonato Australiano. Hackett fez mais que isso.

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Com os companheiros de Miami venceu fácil o título australiano e também ganhou uma vaga na equipe que foi ao Mundial de Kazan para o revezamento 4×200 metros nado livre. Nomeado capitão da equipe, Hackett estava de volta a Seleção Principal de seu país e nadou apenas as eliminatórias da prova no Mundial abrindo para 1:47.83 com a equipe classificando com o primeiro tempo. Na final, assistiu os companheiros terminarem com o bronze das arquibancadas.

A volta de Hackett se tornou mais intensa. Os sonhos também. A vontade de estar no Rio 2016 era grande e os treinamentos se tornaram maiores e mais fortes. Hackett não foi bem na seletiva olímpica. Nadou os 400 livre e terminou em quarto lugar com 3:48.84. Dois dias depois não passou das semifinais nos 200 livre, ficou em 11o e com 1:49.09 anunciava sua segunda aposentadoria.

Hackett e seu treinador Dennis Cotterell
Hackett e seu treinador Dennis Cotterell

Aos 35 anos de idade, e poucos dias antes de completar 36, Hackett, mesmo fora do Rio 2016, era um dos nomes do momento. Estava cotadíssimo para ser o mentor da equipe e viajar junto com a delegação e atuar como comentarista da TV australiana na cobertura olímpica. Sua viagem de volta para casa entretanto foi marcada por mais um caso de distúrbio. Completamente embriagado, Hackett criou problemas a bordo e chegou a agredir um passageiro. Sua imagem sendo detido e transportado em uma cadeira de rodas ganhou as capas dos jornais de todo país.

Hackett estava fora do circuito há algum tempo. Seu nome voltou a ser ventilado pela Australia Swimming e novamente participar das ações com a Seleção Principal. Seus problemas mentais, era algo que vinha sendo mantido apenas com a família. O incidente de quinta-feira mudou todo este quadro.

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Não faltaram mensagens de apoio dentro da Seleção Australiana. A voz mais ativa foi da ex-companheira de equipe Stephanie Rice. Até mesmo a Federação Australiana emitiu um comunicado oficial lamentando o episódio destacando a importância que Grant Hackett em na natação australiana. (texto em inglês)

Swimming Australia is concerned to hear of the reports surrounding Grant Hackett on Wednesday February 15.
We are not aware of the full circumstances surrounding his situation but we offer our support to him and his family.
Swimming Australia believes that it is important that Grant and his family are given the necessary support in this situation and we will continue to support them throughout this journey to recovery, as we would do for any of our members.
Swimming Australia CEO Mark Anderson said: “We have maintained contact with and support for Grant regularly and he has been engaged with the swimming network since his return to the pool in 2015. Since the 2016 Australian Championships, we have continued this contact. Both John Bertrand and I connected with him on separate occasions late last year following the Rio Olympics.
“Given these recent circumstances, we once again reached out to Grant and his family to continue to offer support and assistance in any way we can.
“Our primary concern is his health and well-being and personal welfare. Grant is a legend of Australian sport and an important part of the Australian swimming family.
“Through the Australian Swimmers Association and educational programs like ‘Beyond the Black Line’, we want to ensure that all of our swimmers throughout the course of their swimming journey are prepared and supported.
“Swimming Australia provides athlete support through its Personal Excellence and Performance Psychology programs into, through, and beyond the High Performance Pathway.
“This is an area of the sport that Swimming Australia takes very seriously”.
The Australian Swimmers Association (ASA) General Manager Daniel Kowalski said: “The health and wellbeing of our swimmers throughout their careers and especially following their exit from the sport is a major priority for us.
“We work closely with Swimming Australia to ensure swimmers are supported not only throughout their professional career but once they leave the sport as well.
“The ASA provides support and information relating to challenges that swimmers may face during their careers as well as information on the transition from swimming career to a life away from the pool.”
Swimming Australia will work hard to ensure we continue to offer the necessary support for all of our swimmers, both past and present.

Todas as medalhas internacionais de Grant Hackett 

COMPETIÇÕES OURO PRATA BRONZE TOTAL
OLIMPÍADA 3 3 1 7
MUNDIAL LONGA 10 6 3 19
MUNDIAL CURTA 7 0 1 8
GOODWILL GAMES 2 1 0 3
PAN PACíFICO 9 4 0 13
COMMONWEALTH GAMES 5 3 0  8
TOTAL 36 17 5 58

 

Desde a segunda aposentadoria em abril, Hackett estava trabalhando no sistema financeiro e atuando como comentarista de natação do Channel 9. Também estava com uma relação bem sólida com a advogada Maggie Keating, uma canadense residente na Austrália de 33 anos. Fotos dos dois sumiram da conta de Instagram de Hackett no mesmo dia do incidente.

Hackett e a ex-namorada
Hackett e a ex-namorada

Não se sabe ao certo o problema de Grant Hackett. A família fala em distúrbios mentais, mas problemas com álcool e remédios controlados também são citados com frequência. Segundo o pai, Nev Hackett, seu filho foi internado pelo menos três vezes nos últimos dois anos.

Nev Hackett o pai, e o irmão Craig
Nev Hackett o pai, e o irmão Craig

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